Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


segunda-feira, 15 de abril de 2013

FALAR



Sinto falta da palavra
não da social
nem a do cumprimento casual
mas da debatida,
da travada à volta
da que gera discussão,

porque alvo de muita opinião,
muita filosofia
e muita frase feita.

Contudo
quanto mais o sentido do objecto em causa
é desconhecido
mais surge quem o quer esclarecer
utilizando teorias semânticas,

sintaxes alternativas
e até evolução da morfologia
esquecendo o conteúdo
ou outros princípios mais
que apenas servem

para disfarçar a ignorância
de quem sobre o saber só tem ganância.

Nós, os que gostamos da palavra,
e que nos servimos dela
para dar vida a um qualquer tema,
não precisamos de público nem luzes da ribalta
para a celebrar.

Isso não passa de um esquema
para quem não é ouvido, mas insiste em falar.

SS

sábado, 13 de abril de 2013

TEMPO


Nós não temos tempo
nem mesmo uma imagem dele.
É uma aragem que surge entre nós
que nos atravessa sem passagem.
Nunca o sentimos,
não o medimos
e não o conseguimos ver.

Tempo é algo
que escorre pelos dedos
e se alberga na nossa alma.

E como não o conseguimos aí deter
buscamo-lo continuamente
para o tentar apreender.

Tempo para nós
Limita-se ao estar
sem limites

sem dúvidas.

Tempo para nós é só ficar.


SS

quinta-feira, 11 de abril de 2013

PERDI A ALMA


Perdi a alma
nas pequenas coisas
do quotidiano;
nas conversas trocadas
pelas ruas
com gente que vagueia;
nas notícias
que se cruzam
ocas e sem destino;
na chuva
que cai sem parar
no inverno desta primavera;
nas flores
que não abrem
porque se apagou o sol;
nos dias
que se sucedem
em discordante sequência;


perdi a alma
por mim
por ti
por nós
pela ausência…

SS

domingo, 7 de abril de 2013

METÁFORA PESSOAL

São longos e escusos os caminhos
desta jornada
de que não vemos o rumo nem o ponto de chegada.
A cada passo que damos
o nosso esforço em entender
parece arrastar-nos para o caos e para o nada.

Esta indefinição é uma zona escura
que nos confunde
e nos perturba qualquer reflexão.
Melhor será esperar o fim da tempestade
para recomeçarmos do ponto de partida
com novos e transparentes meios de visão.

Para que o nosso mundo nos pareça mais claro
caminhemos afastando-nos dos prédios
pois só assim nos aperceberemos da cidade.


SS

sexta-feira, 5 de abril de 2013

FIO DE UMA HISTÓRIA


Apanhei um fio da tua história
e instalei-me nela 

sem pedir licença.
O teu silêncio
interpretei-o como permissão
para lá permanecer.

Primeiro fiquei só um pouco
depois fui ficando, ficando
e quase sem dar por isso
ocupei o teu espaço
e sem me tentar esconder
preenchi-o até ao fim.

E o fio da tua história,
aquele que eu tinha puxado
para ser parte de ti
envolveu-se todo em mim.


SS

quarta-feira, 3 de abril de 2013

REGRESSO DO SOL



Com o sol chegou-me a tua imagem.
Talvez tenha sido por me sentir acariciada
pelos fios de calor que me envolveram
como num abraço
e que me fizeram lembrar
os que me costumas dar

quando me tens só para ti. 

Ando tão falha deles…


Terá sido por isso
que este inverno foi tão frio
e o céu chorou todos estes meses?

Esperemos um pouco mais…
até ao sol voltar a ser um amarelo radiante
e o céu se vestir todo inteiro de azul.
Então nada nem ninguém me prenderá.
Voltarei a ser gaivota livre,
solta de amarras e de temporais
que irá abandonar a praia da espera,
sítio escondido dos que sofrem,
e onde quer que estejas aí te encontrará.


SS