Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


sexta-feira, 17 de junho de 2011


Comer uma maçã
É como morder uma boca.
Ambas saciam a fome
Mas em contextos diferentes.
As duas lembram um toque
De textura semelhante
Carnuda e saborosa.
Têm um sumo adocicado
Que escorre pelos lábios
Em ribeira pressurosa.

Comparação transgressora
Dirá o mundo malvado:
Pois se prefiro a maçã
É sinal que tenho fome.
Se optar pelo boca
É porque caí em pecado.
SS

quinta-feira, 16 de junho de 2011

ILUSÃO

Em ti sonho dias
Sonho noites
Numa solidão desesperada.


Em ti busco rumos
Busco forças
Numa esperança alucinada.
Em ti busco luz
Busco o impossível
Com as mãos cheias de nada.
Viver assim
É viver sem ilusão.
De que me serve ser um corpo
Se ele não tem coração?
SS

domingo, 12 de junho de 2011

FAMA

Não me ilude
O brilho nem o colorido da fama.

A glória é um fugaz momento
Que alimenta egos
E se dissolve numa rajada de vento.

Só me deixo iludir
Quando alguém diz que me ama.
SS

sexta-feira, 10 de junho de 2011

VIAGEM

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...

Miguel Torga

domingo, 5 de junho de 2011

OS MEUS VERSOS

Os meus versos
Não dizem nada
Que não saibas já.
Por mais que tente
Dar-te uma novidade
Falo-te sempre
Dalguma coisa já passada.

E quando quero
Falar-te de amor
Então fico sem jeito.
Limito-me a frases feitas
Ou copiadas de livros
Semvalor e sem afecto.
Por isso mal as escrevo
Logo as rejeito.

SS

quinta-feira, 2 de junho de 2011

VENTO


Distrai-me o vento
Dos afazeres do dia.
Disperso-me na dança
Das roseiras no jardim
E, se bem que mais lento
Do que o do alvor da manhã,
Que por ser leste
Era bem mais forte,
Rouba-me toda a atenção
Que me exige
O trabalho do momento.

GM