Uma irreverência entre a memória e a saudade
Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
domingo, 28 de outubro de 2012
DESEJO
Espraiar o olhar sobre o teu rio
num fim de uma tarde outonal
vendo ao longe a outra margem
e a ponte desenhada em sombra sobre águas,
sorvendo um chá quente partilhado
em casal .
Voltar para a casa que não temos,
mãos nas mãos e dedos entrelaçados,
atravessar a cidade viva para lá chegarmos
entre palavras e sorrisos construídos na saudade,
por fim descansar da fadiga do amor
bem abraçados,
Esboço de um desejo
ou desejo atrasado?
SS
sábado, 27 de outubro de 2012
ESPERANÇA
Despi-me completamente
do cinza do dia de hoje,
do desconforto da solidão,
das saudades que teimam em não me largar
e lancei-me a uma tarefa inesperada.
Nada como começar um trabalho,
sobretudo se acidental,
para despertar.
Por momentos, anos ou dias,
viverei tão embrenhada na novidade
que me despirei das tristezas
e cada momento passará a ser (se correr bem)
de pequenas e espontâneas alegrias.
Por isso
parti para o desconhecido
e para longe do habitual, do quotidiano,
soltando-me totalmente da rotina.
Não sei onde vou parar.
Não sei o que vou fazer.
Apenas espero que, enquanto durar,
eu seja capaz de conseguir renascer.
SS
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Quando o mau tempo acabar
jura-me, amor,
que tudo vai ser como dantes.
Que vamos voltar a partilhar
o tempo que roubávamos aos outros
e guardávamos inteiro para nós
apenas para estarmos.
Que boa era essa coisa simples de estarmos!
Falávamos (até tu, que és tão avaro nas palavras),
discutíamos
ríamos
passeávamos
e a cada intervalo que fazíamos
nos amávamos.
Jura-me, amor,
que quando o mau tempo acabar
vamos voltar a ser tudo quanto fomos antes.
SS
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Falta-me o chão
Aquele espaço térreo a que cresci agarrada;
Falta-me o horizonte
Aquela extensão onde julgava ver toda a minha vida esboçada;
Falta-me a certeza
Aquele lugar de segurança em que tudo é uma verdade;
Falta-me a esperança
Aquela virtude que me fazia pensar que ser gente era uma qualidade;
Faltam-me as pequenas coisas de todos os dias
As que me mantinham estável no meu percurso para a eternidade.
Perdi-me eu de mim
Caminhante num país sem rumo nem integridade.
SS
sábado, 20 de outubro de 2012
UM DIA ESPECIAL
Primeiro era o acordar
ao som das palavras, das carícias e do beijo do meu pai.
Depois era o correr para a minha mãe
que me acolhia nos seus braços bem apertados.
Era então a vez da tia Rosa (que foi a minha outra mãe)
e do Zé, o primo que foi meu irmão,
logo seguido pelos empregados das lojas que eram uma espécie de tios.
Assim começava invariavelmente o meu dia de anos
quando fazer anos era uma festa para mim.
O meio dia marcava a chegada à Boavista,
à casa onde nasci e onde os meus padrinhos (os novos e os velhos)
o Jaime, a Lalas e a Becas, e até a lírica Maria Emília,
retomavam o ritual de beijos e abraços que já tivera em Matosinhos.
Depois eram as corridas com o Lucas à volta da mesa da sala de jantar,
algo proibido, mas muito apetecido.
À tarde era o regresso a Matosinhos e o lanche com os amigos da minha rua
(sim porque eu tinha uma rua só para mim).
Depois das prendas e das brincadeiras
vinha o cheirinho do bolo e o apagar da vela.
Ao jantar, apesar do sono e do cansaço, era vez do meu prato especial:
Bacalhau à Brás, como hoje, tal e qual.
E acabava o meu dia
de volta à cama, nos braços do meu pai, já adormecida.
Hoje
Vou festejar os meus anos mais uma vez.
Não digo quantos
Porque me recuso a passar dos sessenta + 10.
O meu coração já não aguenta
tanta saudade do que ficou e sobretudo de quem ficou para trás.
Vou ter filhas e netos à minha volta,
e certamente os beijos e abraços de amigos,
sms, emails ou votos de felicidade pelo Facebook.
Mudam-se os tempos
ganham-se mais amizades
que vieram conviver com as que já partiram.
Todas guardo com a mesma emoção
Porque todas me marcaram com algo bonito.
Para quantos gostam de mim e mo vão mostrando
vai um abraço do tamanho deste mundo
no momento em que dou um largo passo em direcção ao infinito.
GM
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