Uma irreverência entre a memória e a saudade
Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Falta-me o chão
Aquele espaço térreo a que cresci agarrada;
Falta-me o horizonte
Aquela extensão onde julgava ver toda a minha vida esboçada;
Falta-me a certeza
Aquele lugar de segurança em que tudo é uma verdade;
Falta-me a esperança
Aquela virtude que me fazia pensar que ser gente era uma qualidade;
Faltam-me as pequenas coisas de todos os dias
As que me mantinham estável no meu percurso para a eternidade.
Perdi-me eu de mim
Caminhante num país sem rumo nem integridade.
SS
sábado, 20 de outubro de 2012
UM DIA ESPECIAL
Primeiro era o acordar
ao som das palavras, das carícias e do beijo do meu pai.
Depois era o correr para a minha mãe
que me acolhia nos seus braços bem apertados.
Era então a vez da tia Rosa (que foi a minha outra mãe)
e do Zé, o primo que foi meu irmão,
logo seguido pelos empregados das lojas que eram uma espécie de tios.
Assim começava invariavelmente o meu dia de anos
quando fazer anos era uma festa para mim.
O meio dia marcava a chegada à Boavista,
à casa onde nasci e onde os meus padrinhos (os novos e os velhos)
o Jaime, a Lalas e a Becas, e até a lírica Maria Emília,
retomavam o ritual de beijos e abraços que já tivera em Matosinhos.
Depois eram as corridas com o Lucas à volta da mesa da sala de jantar,
algo proibido, mas muito apetecido.
À tarde era o regresso a Matosinhos e o lanche com os amigos da minha rua
(sim porque eu tinha uma rua só para mim).
Depois das prendas e das brincadeiras
vinha o cheirinho do bolo e o apagar da vela.
Ao jantar, apesar do sono e do cansaço, era vez do meu prato especial:
Bacalhau à Brás, como hoje, tal e qual.
E acabava o meu dia
de volta à cama, nos braços do meu pai, já adormecida.
Hoje
Vou festejar os meus anos mais uma vez.
Não digo quantos
Porque me recuso a passar dos sessenta + 10.
O meu coração já não aguenta
tanta saudade do que ficou e sobretudo de quem ficou para trás.
Vou ter filhas e netos à minha volta,
e certamente os beijos e abraços de amigos,
sms, emails ou votos de felicidade pelo Facebook.
Mudam-se os tempos
ganham-se mais amizades
que vieram conviver com as que já partiram.
Todas guardo com a mesma emoção
Porque todas me marcaram com algo bonito.
Para quantos gostam de mim e mo vão mostrando
vai um abraço do tamanho deste mundo
no momento em que dou um largo passo em direcção ao infinito.
GM
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
LEVA-ME CONTIGO
Estende-me a tua mão
e leva-me contigo…
Não interessa para onde
mas leva-me contigo…
Não farei perguntas,
não me afastarei,
caminharei em silêncio
e de olhos fechados…
mas leva-me contigo.
E se por acaso,
por distração ou cansaço,
eu me queixar
não ligues ao que eu digo…
… continua, em silêncio,
Mas leva-me contigo…
SS
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
PECADO ORIGINAL
Sinto saudades
desse teu ar meio trocista,
meio apaixonado,
quando, depois do amor,
te deitas de mansinho a meu lado.
Há nos teus olhos uma paz feita de gozo
que sem cessar esvoaça sobre nós
derramando-se inteira sobre mim.
E se te pergunto: isto é pecado?
Respondes sorrindo à minha dúvida:
Será que pode ser pecado amar assim?
Há nos teus olhos uma paz feita de gozo
que sem cessar esvoaça sobre nós
derramando-se inteira sobre mim.
E se te pergunto: isto é pecado?
Respondes sorrindo à minha dúvida:
Será que pode ser pecado amar assim?
SS
terça-feira, 16 de outubro de 2012
NOVA MADRUGADA
Hoje desejo uma nova madrugada
que por ser nova anuncie um dia novo
e as suas cores se misturem numa mancha
em que seja impossível distingui-las
porque juntas formam um só tom.
No dia em que nascer essa madrugada
a anunciar o esperado dia novo
voltará a haver esperança
e cada um de nós
terá poder porque tem força.
E a nossa voz se ouvirá mais forte
porque separados somos apenas seres
mas juntos temos a força de um povo.
SS
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
SILÊNCIO
Certamente não me ouviste
mas eu falei-te
não pessoalmente
nem pelo telefone.
Falei-te através da distância,
aquele espaço sem cor nem tempo
onde não temos lugar
porque ele próprio não existe.
Não tinha nada de especial para te dizer.
Falei por falar e apenas um momento.
É que o silêncio
quando é demais
lembra logo esquecimento...
SS
Subscrever:
Mensagens (Atom)

