Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


quarta-feira, 4 de julho de 2012

DESENCONTRO

O desencontro
não é mais do que o encontro
de não te encontrar. 

Nunca te perdi
porque nunca te achei
Tu procuraste
e tu me encontraste.

E quando te encontro
entre os desencontros
guardo-te em mim
para evitar
que o tempo de encontro
se deixe anular
pelos desencontros.


Porque o desencontro
não é mais do que o encontro
de não te encontrar.

SS

terça-feira, 3 de julho de 2012

CONVERSAS

Quando falamos cara a cara
as nossas palavras embrulham-se

e muitas vezes
acabámos perdidos nas conversas.

Isto quando não dizemos os dois o mesmo
mas de modo diferente.

Parecemos um novelo mal dobado
que se rompe à medida que o fazemos
e vai soltando as pontas desgarradas

que nunca atámos
porque não temos tempo de as agarrar.

Mas um dia há-de chegar
em que vamos ter
todo o tempo e todas as palavras
para concluirmos todas as conversas
e dobarmos finalmente o tal novelo
que começámos e não conseguimos acabar.


SS

segunda-feira, 2 de julho de 2012

BUSCA/PROCURA

É tua a busca, mas minha a procura.
Buscar é o teu ponto de partida.
Encontrar será o meu de chegada.


Quando a tua busca se cruzar
com a minha chegada
esse será o momento
em que o que projectamos estará cumprido
porque se complementaram todas as jornadas.

Só então a obra será inteiramente nossa.

SS

domingo, 1 de julho de 2012

SÁBADO

Está cinza o dia
e a luz embaciada
embrulha as cores
das plantas do jardim
numa espécie de poalha. 

Por isso quando o sol desponta,
a medo e meio escondido
nas nuvens esfarrapadas,

tenho a impressão
que sorri
mas só para mim.


GM

sábado, 30 de junho de 2012

O TEU TEMPO


Por vezes
dás-me um pouco do teu tempo
e o som da tua voz

vem alegrar-me o dia
ou saudar a minha noite.
Em frases breves
ou em monossílabos
esse teu tempo
é algo que eu espero sempre
embora sabendo que não tem ritual
nem frequência estabelecida.

Acontece quando te apetece.

Talvez por isso sempre que chega,
pelo inesperado ou pelo som da voz,
o tempo sem tempo que me dás
desperta o que de especial há de mim em nós.


SS

sexta-feira, 29 de junho de 2012



Em plena cidade
vejo um espaço azul
por entre os prédios e os pinhais
que me rodeiam
e uma mancha que dizem ser o mar
mas que poderia ser o céu
porque ambos se confundem a esta distância.


Pequeno prazer de quem gosta de sonhar
que vive algures num outro espaço
em que os dias se vestem de azul
e a maresia é uma essência
espalhada por Deus para nos purificar.

GM