Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


quarta-feira, 20 de junho de 2012

TEMPO ENTRE NÓS


Não meço o tempo quando não estás
porque é um tempo longo
penoso
difícil de passar
um tempo de espera
que nunca sei se vai terminar.

Não conto o tempo quando tu estás
porque é um tempo tão curto
tão leve
tão feliz
tão cheio de ti
que receio que se vá dissipar
só porque eu o estou a contar.


SS

terça-feira, 19 de junho de 2012

AMANTE IMAGINÁRIO

Há duas maneiras de amar:
amar por amar ou fazer amor.
A segunda precisa da primeira
mas a primeira nem sempre acaba na segunda.
Digamos que são coisas distintas
que se podem ou não conjugar.
Mentiria se dissesse que não gosto da segunda
mas a minha preferência vai para a primeira
que me alimenta alma
e condiz mais com o meu eu
que gosta do silêncio e calma.
Amar acompanha-nos todo o dia

(e as noites também, se são de insónia)
e para viver basta-lhe só um coração
se bem que repartido por dois
porque não é possível amar em solitário.

Isto a não ser quem  seja tão bom de fantasia
que tenha conseguido criar dentro de si,
como uma criança quando está sozinha,
não um amigo, mas um amante imaginário.


SS

segunda-feira, 18 de junho de 2012

PERDOA, AMOR

Perdoa, amor,
Mas não me lembro bem do dia
em que contigo cruzei.
Muito melhor fixei
quando te comecei a querer.
Não são de confundir os dois momentos.
No primeiro só te antevi e parti.
Mas no segundo..
Ah, no segundo…
olhei-te e fiquei parada ali
à espera não sei de quê.

Depois disso
quantas voltas deu a terra
sem eu me perder de ti?
Quantos meses, dias, horas
para não falar em anos,
já passaram

desde que em mim te senti?
Quantas noites me deitei
e o meu sono todo inteiro
foi um namoro constante
feito oferta para ti?


Depois disto, meu amor,
pelo tempo que vivemos,
já me poderás perdoar
que eu não possa recordar
a primeira vez que te vi?


SS

domingo, 17 de junho de 2012



Depois da chuvada da manhã

o dia ofereceu-nos uma tarde radiosa.

A praia cobriu-se de figuras estendidas

e a areia, ainda molhada,

colava-se nas peles a corar ao sol.

Será que afinal chegou o verão

ou só estará a brincar às escondidas?


GM

sábado, 16 de junho de 2012

FUGA

Foges-me
por entre os dedos
como se fosses água corrente de um ribeiro
ou gaivota acossada
que se encosta ao cais
para estar segura
em tarde de temporal.
Fujo-te no vento que passa,
no tempo que corre depressa demais
e eu não consigo deter. 

Cada passo que damos
eu fico um pouco mais longe de ti
e tu de mim.
É tão grande a distância
entre o sermos e os estarmos
que às vezes penso
que foi neste desacerto
que o nosso amor encontrou o ponto certo.

SS

sexta-feira, 15 de junho de 2012

TARDE

Foi longo o dia
Sobretudo a tarde,
em que nada fiz do que precisava
antes me partilhei
entre coisas domésticas,
pequenas,
fúteis,
daquelas que não levam a nada
mas aparentam ser úteis.

O que mais me irrita
e mais lamento,
nesta tarde corrida sem tento,
perseguindo atrás do nada
uma rota
daqui para ali,
é que quase não arranjei tempo
para poder pensar em ti.

SS