Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


quarta-feira, 16 de maio de 2012

LONGO É O TEMPO DA ESPERA

Custoso este aguardar
do passar dos dias
com horas, minutos e segundos
sempre iguais
indiferentes ao tempo
e à disposição pessoal.
Choramos para lamentar
e rimos para esquecer
mas o sol, indiferente, nasce a cada dia
mesmo que se não consiga ver.

Há pouco o sol
entrou na minha janela.
Sinal de esperança
ou uma forma de me avisar
que a espera finalmente está a terminar?


SS

terça-feira, 15 de maio de 2012

SONHAR

Sonhar
é a forma mais íntima
que tenho de me libertar
de viajar dentro e fora de mim.
Sem fronteiras nem passaporte,
sem tempo nem lugares definidos
a única coisa de que preciso

para ir onde quero chegar
é apenas sonhar.

Mas como nem tudo é perfeito
 sonhar tem um defeito:

o ACORDAR.

SS

domingo, 13 de maio de 2012

OLHAR

Olha-me nos olhos, amor,
mas não para me olhar.
Quero que me olhes, mas para me ver.
Fá-lo da forma pausada
e do mesmo jeito aberto
com que me despes,
peça por peça,
beijando enlevado
cada espaço do meu corpo
que vai ficando a descoberto.
 
Depois
fecha as minhas mãos nas tuas
e leva-me para o teu mundo
onde o tempo não existe,
o sol confunde o poente com a aurora,
as estrelas não param de brilhar
e de onde nunca ninguém regressa…

Olha-me nos olhos, amor,
assim,
para me veres.

Hoje.
Agora.
Não amanhã.

Quando o teu olhar me beija assim plenamente
sei que já estás pronto e ambos temos pressa.

SS

sexta-feira, 11 de maio de 2012

PALAVRAS DE AMOR

Palavras de amor

não são as palavras que pronuncias
nos momentos em que o corpo
fala mais do que a alma.
A essas prefiro chamar sensuais
porque é a carne que lhes dá sentido.
Vivem da excitação do momento
e raramente são originais.

Palavras de amor, de verdadeiro amor,
são as fortuitas.
Surgem de repente
e escorrem por mim
como se estivesses a beijar-me inteira.
Ouço-as nos teus sorrisos
que consigo adivinhar à distância.
Nascidas da saudade
crescem na emoção de um esperado reencontro.
A cada dia que passa circulam entre nós
como um vaivém de promessas a pagar.
Quando as pronunciamos?

Nunca o sabemos,
mas para as ouvirmos
basta-nos falar.
SS



terça-feira, 8 de maio de 2012

TEMPO SEM RUMO

O tempo perdeu o rumo.

Ontem esteve sol.

Hoje está frio.

Chove

e o vento leva tudo pelo ar.

Se ontem pedia passeio,

estar na rua todo o dia

e roupagem muito leve,

hoje sugere lareira,

um sofá com uma manta

uma boa companhia

um livro e música de fundo.



Com estes pequenos nadas,

só coisas de trazer por casa,

poderia o tempo sem rumo

melhorar este meu mundo.


SS

domingo, 6 de maio de 2012

MÃE



mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"