Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


terça-feira, 21 de junho de 2011

SER MULHER

A mulher é grande

Embora a queiram minimizar
Quando a comparam com o homem.
O que a faz maior
Não é só criar pequenas coisas
É sobretudo o jeito humilde de fazer as grandes.
Pensar na mulher
Não é só lembrar a mãe
É evocar a filha,
A esposa
A amiga ou a amante.
Ser mulher
É fazer tudo
Com um sorriso
Que pode esconder lágrimas
Ou chorar para expressar uma alegria.
Ser mulher mais do que uma grande tarefa
É uma forma única de estar e criar vida.
GM

LINHAS PARA UM FADO

Sonhei contigo esta noite

No meio da escuridão
Não tinhas forma ou jeito
Nem modos de quem queria
Apertar-me no seu peito.

Quando acordei estava só
Na  minha cama vazia
E  a morrer  de saudade.
Se me queres não me castigues
Dando-me só amizade

SS

sexta-feira, 17 de junho de 2011


Comer uma maçã
É como morder uma boca.
Ambas saciam a fome
Mas em contextos diferentes.
As duas lembram um toque
De textura semelhante
Carnuda e saborosa.
Têm um sumo adocicado
Que escorre pelos lábios
Em ribeira pressurosa.

Comparação transgressora
Dirá o mundo malvado:
Pois se prefiro a maçã
É sinal que tenho fome.
Se optar pelo boca
É porque caí em pecado.
SS

quinta-feira, 16 de junho de 2011

ILUSÃO

Em ti sonho dias
Sonho noites
Numa solidão desesperada.


Em ti busco rumos
Busco forças
Numa esperança alucinada.
Em ti busco luz
Busco o impossível
Com as mãos cheias de nada.
Viver assim
É viver sem ilusão.
De que me serve ser um corpo
Se ele não tem coração?
SS

domingo, 12 de junho de 2011

FAMA

Não me ilude
O brilho nem o colorido da fama.

A glória é um fugaz momento
Que alimenta egos
E se dissolve numa rajada de vento.

Só me deixo iludir
Quando alguém diz que me ama.
SS

sexta-feira, 10 de junho de 2011

VIAGEM

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...

Miguel Torga