Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


domingo, 1 de maio de 2011

SONHO

Por momentos Adormeci no sofá Lendo um livro sem interesse. Talvez por isso mesmo tivesse adormecido. Um raio de sol Acordou-me de um modo divertido Traçando arabescos no meu nariz Mas cortando o filme do meu sonho Em que o príncipe beijava a plebeia. Que pena! Assim nunca saberei Se o seu desfecho iria ou não ser feliz. SS

MÃE - PARA SEMPRE

Para sempre Por que Deus permite que as mães vão-se embora? Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba, veludo escondido na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento. Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Mãe, na sua graça, é eternidade. Por que Deus se lembra - mistério profundo - de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho. Carlos Drumond de Andrade

sábado, 30 de abril de 2011

SENTIR

Sentir Mas sentir o quê? A minha disposição Muda com o que vê A cada minuto A cada instante. Tudo em volta de mim Está em confusão E o que não está É irrelevante. Assim Vou fechar-me para tudo E seguir apenas O que me dita o coração. SS

sexta-feira, 29 de abril de 2011

LIVROS

Salvam-me os livros Nas longas noites de insónia. Não me readormecem Mas ocupam. Com eles viajo Num torpor Que me atira Para uma espécie de jet-lag dos fusos horários. Tentar deitar-me sem livros? Já o fiz Mas o resultado foi comprovar Quanto eles me são necessários. SS

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Às vezes Parece que estás ao alcance da minha mão Tão perto sinto a tua presença. São os momentos em que me parece Ouvir a tua voz Sentir o teu cheiro Saborear o teu calor. Desfruto então De todas essas sensações E deixo-me esvair em cada uma delas. Porque viver um amor assim É como mergulhar num mar de muitas perdições SS

quarta-feira, 27 de abril de 2011

DISTÂNCIA

A distância é um vazio Um desencontro Um esquecimento. É um não saber E um tentar adivinhar A cada momento. Distância é um mundo escuro Em que se procura algo Apenas por intuição. Distância é um jogo De sorte ou de azar Vivido em emoção. SS