Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

PERDI O HÁBITO DE TI

Perdi o hábito de ti. A ausência Preencheu o teu lugar Com inseguranças Incertezas E saudades. Já não sei a cor do teu olhar E silenciei a memória Da tua voz. Por isso Vivo em confusão No meio das gentes E não te encontro Porque não sei procurar-te. Busca-me tu Para que não te perca. Tira-me desta sombra Em que me fecho. Não deixes que me leve O esquecimento. SS

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Dá-me a tua mão E ensina-me o teu olhar. Quero ver as coisas Claras como tu. Mostra-me o céu Do teu imaginário E o mar em que navegas Quando repousas Nesse teu silêncio Tão profundo Que apenas tu sentes Mas não sabes explicar. Dá-me a tua mão E leva-me contigo Num voo de gaivotas Ou num rasto de corça, Se preferires, Mas não me deixes só. Perderia as referências Do meu sentir E esqueceria A capacidade de amar. Tornar-me-ia Uma árvore seca Levada pela corrente Que nunca encontraria a foz. Estende a tua mão, Assim De mansinho E guia o meu caminhar… SS

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Não me falas E o teu silêncio Escorre pela minha pele como gotas de suor. Invento causas Procuro razões E nada encontro. Talvez que as tuas palavras Se tenham perdido com a distância do tempo e do lugar e por isso não me encontrem. SS

sábado, 26 de dezembro de 2009

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?) Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

sábado, 14 de novembro de 2009

Cada vez que diz: “gosto muito de si” 
É como se eu ganhasse um presente especial. 
Não que tenha dúvidas 
De que gosta de mim 
Mas porque, sendo raras as vezes Em que isso acontece, 
O faz de um modo especial, 
Brusco e quase envergonhado, 
Mas com um olhar de ternura tão intenso 
Que dissipa o tom pragmático da declaração. 
Por isso, amor, diga-o mais vezes 
Porque é no reviver desses momentos 
Que mitigo a dor da nossa ausência.
SS

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

GLOSA

MOTE:  O Outono é lindo como nós
 Porque Nós somos o Outono E somos lindos- Isso pelo menos dizem os nossos olhos -Quando se cruzam depois do amor. Somos também imprevisíveis -Porque apesar de termos nascido de um acaso- Nos completamos nas coisas importantes da nossa humanidade E nos risos que trocamos a propósito de nada. O nosso lugar no mundo situa-se dentro de nós. Mas sobretudo somos fortes porque em nós se casam 
A luminosidade de todas as Primaveras 
Com os calores rubros de cada verão. 
E quando chegarmos ao Inverno 
Vamos ser aquecidos pelo calor dos nossos corações 
E pelas vivências do percurso palmilhado 
Através das estações de todos os nossos anos. 

 SS