Uma irreverência entre a memória e a saudade
Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Dá-me a tua mão
E ensina-me o teu olhar.
Quero ver as coisas
Claras como tu.
Mostra-me o céu
Do teu imaginário
E o mar em que navegas
Quando repousas
Nesse teu silêncio
Tão profundo
Que apenas tu sentes
Mas não sabes explicar.
Dá-me a tua mão
E leva-me contigo
Num voo de gaivotas
Ou num rasto de corça,
Se preferires,
Mas não me deixes só.
Perderia as referências
Do meu sentir
E esqueceria
A capacidade de amar.
Tornar-me-ia
Uma árvore seca
Levada pela corrente
Que nunca encontraria a foz.
Estende a tua mão,
Assim
De mansinho
E guia o meu caminhar…
SS
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
sábado, 26 de dezembro de 2009
RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
sábado, 14 de novembro de 2009
Cada vez que diz:
“gosto muito de si”
É como se eu ganhasse um presente especial.
Não que tenha dúvidas
De que gosta de mim
Mas porque, sendo raras as vezes Em que isso acontece,
O faz de um modo especial,
Brusco e quase envergonhado,
Mas com um olhar de ternura tão intenso
Que dissipa o tom pragmático da declaração.
Por isso, amor, diga-o mais vezes
Porque é no reviver desses momentos
Que mitigo a dor da nossa ausência.
SS
É como se eu ganhasse um presente especial.
Não que tenha dúvidas
De que gosta de mim
Mas porque, sendo raras as vezes Em que isso acontece,
O faz de um modo especial,
Brusco e quase envergonhado,
Mas com um olhar de ternura tão intenso
Que dissipa o tom pragmático da declaração.
Por isso, amor, diga-o mais vezes
Porque é no reviver desses momentos
Que mitigo a dor da nossa ausência.
SS
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
GLOSA
MOTE: O Outono é lindo como nós
Porque Nós somos o Outono E somos lindos- Isso pelo menos dizem os nossos olhos -Quando se cruzam depois do amor. Somos também imprevisíveis -Porque apesar de termos nascido de um acaso- Nos completamos nas coisas importantes da nossa humanidade E nos risos que trocamos a propósito de nada. O nosso lugar no mundo situa-se dentro de nós. Mas sobretudo somos fortes porque em nós se casam
A luminosidade de todas as Primaveras
Com os calores rubros de cada verão.
E quando chegarmos ao Inverno
Vamos ser aquecidos pelo calor dos nossos corações
E pelas vivências do percurso palmilhado
Através das estações de todos os nossos anos.
SS
Porque Nós somos o Outono E somos lindos- Isso pelo menos dizem os nossos olhos -Quando se cruzam depois do amor. Somos também imprevisíveis -Porque apesar de termos nascido de um acaso- Nos completamos nas coisas importantes da nossa humanidade E nos risos que trocamos a propósito de nada. O nosso lugar no mundo situa-se dentro de nós. Mas sobretudo somos fortes porque em nós se casam
A luminosidade de todas as Primaveras
Com os calores rubros de cada verão.
E quando chegarmos ao Inverno
Vamos ser aquecidos pelo calor dos nossos corações
E pelas vivências do percurso palmilhado
Através das estações de todos os nossos anos.
SS
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
QUERO-TE / AMO-TE
Quero-te
Porque me ouves
E não me criticas;
Porque sugeres
E nunca exiges;
Porque ocupado
Me dás o teu tempo:
Porque estás presente
Mesmo à distância;
Porque os teus silêncios
Falam mais do que as tuas palavras;
Porque me cuidas
Quando eu arrisco;
Porque despenalizas
As minhas incoerências…
Quero-te porque te quero.
Amo-te
Porque me aceitas
Como sou e com o que tenho;
Porque o teu corpo
Me serve de abrigo;
E, para além da firmeza e do calor,
Tem a medida quase perfeita
Para receber o meu.
SS
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