Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


quarta-feira, 1 de agosto de 2018


VENTO SUÃO


Chegaste sem avisar
Até talvez sorrindo
Daquele modo especial
De quem vem para surpreender.
Enganaste-te porém.
Uma mulher lê nos astros
E o seu coração tem faro.
Sabia que vinhas a caminho
Porque já sentira o teu cheiro
Trazido pelo vento
Que, soprando até então do norte,
virara num repente a suão.


SS

terça-feira, 31 de julho de 2018



Esta mañana

Había una alfombra de gaviotas en la orilla dorada del mar.
Esta mañana había plateadas barcas de pesca pero no había olas.
Esta mañana entraba en el puerto
Un buque grande de cruceros
De los que hacen soñar con paisajes exóticos
y amor en noches de luna llena.

Pero esta mañana no había veleros
como aquel en que nos gustaría
surcar las rias gallegas,
escuchar el silencio,
darnos las manos
y querernos mucho.

Soror Saudade


segunda-feira, 30 de julho de 2018


               PERDI O HÁBITO DE TI


Perdi o hábito de ti.
A ausência
Preencheu o teu lugar
Com inseguranças
Incertezas
E saudades.
Já não sei a cor do teu olhar
E silenciei a memória
Da tua voz.
Por isso
Vivo em confusão
No meio das gentes
E não te encontro
Porque não sei procurar-te.

Busca-me tu
Para que não te perca.
Tira-me desta sombra
Em que me fecho.
Não deixes que me leve
O esquecimento.

GM

sexta-feira, 27 de julho de 2018

EMPURREI O AMOR...

Empurrei o amor para dentro do poema
Para que ele copiasse
A forma, o ritmo e o nexo 
Que o poema tem.


Foi uma tarefa impossível, porém.
O amor não é matéria
Logo não se adapta
À forma das letras 
E muito menos cabe nas palavras
Que a métrica exige.

Tentei dar-lhe ritmo
Só que como o amor é surdo
Não respeita cadência nem padrão.

E dar-lhe nexo foi fatal
Porque ávido como é
Se dispersa em rumos diversos
Conforme melhor lhe convém
Ou mais lhe agradam os versos.

Convenci-me então
Que era impossível 
Arrumar o amor num poema.
Assim, para evitar que se perdesse por aí
Ou se metesse em algum problema
Peguei nele, afaguei-o
E com cuidado
Guardei-o de novo 
no meu coração


GM

quinta-feira, 26 de julho de 2018



TEMPO

O nosso tempo escoou-se nas palavras
nos gestos
nas carícias
nos olhares…
E a emoção de estarmos juntos 
E novamente abraçados
Perpassou pelo ar
Como fumo de cigarros
Nervosamente fumados.
SS

quarta-feira, 25 de julho de 2018


EU


Procuro-te
nas pequenas coisas do dia a dia,
no que fiz e no que deixei de fazer,
em cada manhã que se abre em rosa
e em cada tarde que se fecha em azul marinho,
ao anoitecer.

Procuro-te como sou
nos sítios em que imagino estar,
mas onde afinal não estou.

Procuro-te no tempo que sinto passar
e naquele que espero há-de vir,
mas nunca sinto chegar.

Procuro-te no longe e no perto
no que conheço e no que desconheço,
no princípio do tempo e no seu fim.

A minha vida é toda uma procura
que só terminará quando te tiver
todo por inteiro ajustado a mim.

SS