Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


terça-feira, 31 de julho de 2018



Esta mañana

Había una alfombra de gaviotas en la orilla dorada del mar.
Esta mañana había plateadas barcas de pesca pero no había olas.
Esta mañana entraba en el puerto
Un buque grande de cruceros
De los que hacen soñar con paisajes exóticos
y amor en noches de luna llena.

Pero esta mañana no había veleros
como aquel en que nos gustaría
surcar las rias gallegas,
escuchar el silencio,
darnos las manos
y querernos mucho.

Soror Saudade


segunda-feira, 30 de julho de 2018


               PERDI O HÁBITO DE TI


Perdi o hábito de ti.
A ausência
Preencheu o teu lugar
Com inseguranças
Incertezas
E saudades.
Já não sei a cor do teu olhar
E silenciei a memória
Da tua voz.
Por isso
Vivo em confusão
No meio das gentes
E não te encontro
Porque não sei procurar-te.

Busca-me tu
Para que não te perca.
Tira-me desta sombra
Em que me fecho.
Não deixes que me leve
O esquecimento.

GM

sexta-feira, 27 de julho de 2018

EMPURREI O AMOR...

Empurrei o amor para dentro do poema
Para que ele copiasse
A forma, o ritmo e o nexo 
Que o poema tem.


Foi uma tarefa impossível, porém.
O amor não é matéria
Logo não se adapta
À forma das letras 
E muito menos cabe nas palavras
Que a métrica exige.

Tentei dar-lhe ritmo
Só que como o amor é surdo
Não respeita cadência nem padrão.

E dar-lhe nexo foi fatal
Porque ávido como é
Se dispersa em rumos diversos
Conforme melhor lhe convém
Ou mais lhe agradam os versos.

Convenci-me então
Que era impossível 
Arrumar o amor num poema.
Assim, para evitar que se perdesse por aí
Ou se metesse em algum problema
Peguei nele, afaguei-o
E com cuidado
Guardei-o de novo 
no meu coração


GM

quinta-feira, 26 de julho de 2018



TEMPO

O nosso tempo escoou-se nas palavras
nos gestos
nas carícias
nos olhares…
E a emoção de estarmos juntos 
E novamente abraçados
Perpassou pelo ar
Como fumo de cigarros
Nervosamente fumados.
SS

quarta-feira, 25 de julho de 2018


EU


Procuro-te
nas pequenas coisas do dia a dia,
no que fiz e no que deixei de fazer,
em cada manhã que se abre em rosa
e em cada tarde que se fecha em azul marinho,
ao anoitecer.

Procuro-te como sou
nos sítios em que imagino estar,
mas onde afinal não estou.

Procuro-te no tempo que sinto passar
e naquele que espero há-de vir,
mas nunca sinto chegar.

Procuro-te no longe e no perto
no que conheço e no que desconheço,
no princípio do tempo e no seu fim.

A minha vida é toda uma procura
que só terminará quando te tiver
todo por inteiro ajustado a mim.

SS

terça-feira, 24 de julho de 2018


NÓS QUANDO ESTAMOS SÓS


A sós
como duas gaivotas
na solidão do céu,
em pleno mar,
sonhando no ar...

A sós,
lado a lado, sem alarde,
como dois pássaros num alto ramo,
ao cair da tarde...

A sós
como duas mãos quando se procuram
e se encontram,
sem voz...

Como eu e tu
quando somos nós
a sós...

GM

segunda-feira, 23 de julho de 2018



Prometeste vir encontrar-me
num cruzamento de estradas.
É certo que não disseste o dia,
referiste umas datas possíveis ao acaso,
as que julgavas mais convenientes.
Mas o mês vai já quase na metade
e não me chegam sinais da tua decisão.
A cada dia espero que cumpras a promessa
e me digas quando nos vamos encontrar.
Se não vieres, esconde-me a verdade
da razão dessa promessa falhada.
Alega que não vieste por causa do trabalho,
não suportaria que fosse por falta de vontade.

SS 


Hoje


Hoje sonhei-te
emaranhado em todo o meu dia
nas pequenas coisas que fui fazendo
nos pensamentos que fui tendo
nos passos que fui caminhando

nas conversas que estabeleci.

Hoje o meu dia
foi todo inteiro para ti.

 
SS

terça-feira, 3 de julho de 2018



Soam-me as tuas palavras ao ouvido
num eco que vem de longe.
Não as percebo. 
Intuo-as.
Embora parcas,
sei que gostas de mas dizer
mesmo quando não falas
apenas as pensas,
e eu tenho de as adivinhar
no rasto do teu olhar.

GM


quinta-feira, 14 de junho de 2018

SOL

Lá fora há sol
E corre uma brisa solitária
Que quebra o calor
Nesta tarde de um verão tão esperado.
Foi longo o inverno
E isso afastou ainda mais
Quem já estava separado.
Aproveitemos  o tempo novo
Para  enchermos o espaço
Deixado pela solidão
De todo um tempo perdido.
Recobremos o sabor
Dos nossos dias de amor.

GM

terça-feira, 12 de junho de 2018

NORTADA


Definitivamente
hoje não é dia de irmos ver o mar.
Afasta a ideia do copo no bar do costume,
como gostamos de fazer nos fins de tarde,
em que esperamos que o poente nos envolva
no círculo fechado do embalar das ondas
que no seu pacato vai e vem
é um cenário idílico de som e de cor.

Hoje a nortada pintou o mar de verde,
um verde acinzentado,
polvilhado por centenas de flocos de espuma
assustando as gaivotas que, coitadas,
se recolheram em grupo, apinhadas
ao longo do paredão.

Mas porque não vamos ver o mar
não fiques triste.
Dá-me a mão,
fecha os olhos e deixa-te guiar.
À falta de um fim de tarde à beira-mar
Juntos faremos uma íntima celebração:
por praia, teremos a nossa cama
por ocaso, o pensamento que voa como o vento
e daí partiremos até onde o amor nos quiser levar.

domingo, 10 de junho de 2018

quarta-feira, 6 de junho de 2018

AVISO


ATRASO

A coisa não muda a cada noite.
É sempre igual.
Espero-te e tu chegas atrasado
Com o aspecto meio desleixado
De quem vem a correr
Para cumprir um dever…
Não venhas, se já não me queres.
Dessa forma atrapalhada
Não suportaria ter-te a meu lado.

GM


quinta-feira, 24 de maio de 2018

POEMA SEM RIMA MAS COM SAUDADE




Com Maio chegava o Senhor de Matosinhos.
Era a hora de nos reunirmos todos
Para irmos para a folia
Às escondidas dos pais.
Trocava-se a escola
Pela corrida entre carrocéis
A roda gigante
As cestas
E os carrinhos de choque.
Chupávamos os pirolitos,
Os sorvetes
E trincávamos as nuvens de açúcar
circulando em corridas desenfreadas
por entre as barracas das louceiras
 que nos insultavam e enxotavam.
Que modos tão diferentes
Daqueles com que nos tratavam
Nas semanas a seguir
Quando íamos com os pais
Para comprar os bonecos para a cascata

Saudades dessa romaria tão longe no tempo.

Na loja do meu pai, na “Sultana”
Na semana anterior
Afluíam as “binas” (assim chamávamos às lavradeiras)
A comprarem luvas
Elemento fundamental
Para se esconderem as mão calejadas
Quando, no dia da festa,
Se praticava, nas traseiras das capelas do adro,
O namoro à “carreira”
Momento fundamental
Para eles e para elas
Compararem  os seus bens patrimoniais
Que para o caso interessava mais
 Que a beleza dos parceiros.
E assim se casou muita gente.!

À noite era a ida com os pais
Sobretudo na noite do fogo
Depois de comidas as farturas.
A cada foguete era um “ah” imenso
Que rebentava com eles…
E às vezes uma fuga às canas que caíam fora do lugar

No domingo, depois das bandas,
Visitavam-se as flores
Que enchiam toda a igreja.
E na semana seguinte
No mercado ou na lota
 Discutiam as mulheres
A beleza dos altares.

Saudades desse Senhor de Matosinhos
Bem naif por sinal
Mas que nos ocupava todos
E nos fazia esquecer
Que os dias que se seguiam
Eram de escola a valer.
…..
IL


 2018





quinta-feira, 17 de maio de 2018

VIAGEM


 VIAGEM

Viajo nas palavras
como num mapa.
Escolho direcções
marco etapas
traço roteiros.
Depois redijo-as
num vulgar volume de papel
que embrulho cuidadosamente
e remeto para alguém que as entenda.

Nesta viagem, sem partida nem regresso,
só pode ser meu companheiro
quem seguir a mesma senda.

GM



quarta-feira, 16 de maio de 2018


Marinheiro


Foste ao mar marinheiro
com rumo desconhecido.
Partiste só e calado
Que te terá feito partir?
O sonho de uma aventura
ou tão somente fugir?

Deixaste atrás a saudade
nas lágrimas de quem ficou
e nem atendeste ao grito
que da praia te chegou.

Foste ao mar marinheiro
partindo sem me chamar.
Se me amas, nunca esqueças:
Não partas sem me levar.

GM

PERFIL

O meu eu
É Feito de restos dispersos de memórias e de afectos
Tecidos no desfiar do tempo.
Este legado não faz de mim um ser perfeito
Mas é a força que dá vida
ao coração que bate no meu peito.


isabel lago

terça-feira, 15 de maio de 2018



Vem comigo,
mas vem em silêncio
para não estragar o momento
que, para mim, é o mais belo do dia.
O ruído das palavras desconcerta-o
e não quero nada que nos perturbe.
Desçamos até à praia,
vazia  para nós
porque esta hora
é minha, só minha,
e não a empresto a ninguém,
nem mesmo a ti.
Só te a deixo partilhar
porque és uma parte do plano
que tracei para nós dois:
o de te amar um dia
num poente à beira mar.

SS

Ilusão
É descobrirmos
Um raio de sol
Numa noite de tempestade

É vermos uma andorinha
Voltar ao ninho
Durante o Natal

É encontrarmos
Um brinquedo perdido há anos
E sentirmos que voltamos a ser criança

É passarmos a mão por uma roseira
E vermos desabrochar do nada
Uma rosa vermelha

É, sobretudo, quando o desalento nos sufoca
Sermos surpreendidos
Pela chegada de um novo amor


GM


sexta-feira, 4 de maio de 2018



Há um pequeno nada no teu olhar
Que me intriga sempre
Porque não o sei entender…
Sinto apenas que ele me envolve
Como uma nova pele
Que se ajusta melhor ao meu corpo. 
Será ternura ou resto de prazer? 


SS