Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


terça-feira, 3 de julho de 2018



Soam-me as tuas palavras ao ouvido
num eco que vem de longe.
Não as percebo. 
Intuo-as.
Embora parcas,
sei que gostas de mas dizer
mesmo quando não falas
apenas as pensas,
e eu tenho de as adivinhar
no rasto do teu olhar.

GM


quinta-feira, 14 de junho de 2018

SOL

Lá fora há sol
E corre uma brisa solitária
Que quebra o calor
Nesta tarde de um verão tão esperado.
Foi longo o inverno
E isso afastou ainda mais
Quem já estava separado.
Aproveitemos  o tempo novo
Para  enchermos o espaço
Deixado pela solidão
De todo um tempo perdido.
Recobremos o sabor
Dos nossos dias de amor.

GM

terça-feira, 12 de junho de 2018

NORTADA


Definitivamente
hoje não é dia de irmos ver o mar.
Afasta a ideia do copo no bar do costume,
como gostamos de fazer nos fins de tarde,
em que esperamos que o poente nos envolva
no círculo fechado do embalar das ondas
que no seu pacato vai e vem
é um cenário idílico de som e de cor.

Hoje a nortada pintou o mar de verde,
um verde acinzentado,
polvilhado por centenas de flocos de espuma
assustando as gaivotas que, coitadas,
se recolheram em grupo, apinhadas
ao longo do paredão.

Mas porque não vamos ver o mar
não fiques triste.
Dá-me a mão,
fecha os olhos e deixa-te guiar.
À falta de um fim de tarde à beira-mar
Juntos faremos uma íntima celebração:
por praia, teremos a nossa cama
por ocaso, o pensamento que voa como o vento
e daí partiremos até onde o amor nos quiser levar.

domingo, 10 de junho de 2018

quarta-feira, 6 de junho de 2018

AVISO


ATRASO

A coisa não muda a cada noite.
É sempre igual.
Espero-te e tu chegas atrasado
Com o aspecto meio desleixado
De quem vem a correr
Para cumprir um dever…
Não venhas, se já não me queres.
Dessa forma atrapalhada
Não suportaria ter-te a meu lado.

GM


quinta-feira, 24 de maio de 2018

POEMA SEM RIMA MAS COM SAUDADE




Com Maio chegava o Senhor de Matosinhos.
Era a hora de nos reunirmos todos
Para irmos para a folia
Às escondidas dos pais.
Trocava-se a escola
Pela corrida entre carrocéis
A roda gigante
As cestas
E os carrinhos de choque.
Chupávamos os pirolitos,
Os sorvetes
E trincávamos as nuvens de açúcar
circulando em corridas desenfreadas
por entre as barracas das louceiras
 que nos insultavam e enxotavam.
Que modos tão diferentes
Daqueles com que nos tratavam
Nas semanas a seguir
Quando íamos com os pais
Para comprar os bonecos para a cascata

Saudades dessa romaria tão longe no tempo.

Na loja do meu pai, na “Sultana”
Na semana anterior
Afluíam as “binas” (assim chamávamos às lavradeiras)
A comprarem luvas
Elemento fundamental
Para se esconderem as mão calejadas
Quando, no dia da festa,
Se praticava, nas traseiras das capelas do adro,
O namoro à “carreira”
Momento fundamental
Para eles e para elas
Compararem  os seus bens patrimoniais
Que para o caso interessava mais
 Que a beleza dos parceiros.
E assim se casou muita gente.!

À noite era a ida com os pais
Sobretudo na noite do fogo
Depois de comidas as farturas.
A cada foguete era um “ah” imenso
Que rebentava com eles…
E às vezes uma fuga às canas que caíam fora do lugar

No domingo, depois das bandas,
Visitavam-se as flores
Que enchiam toda a igreja.
E na semana seguinte
No mercado ou na lota
 Discutiam as mulheres
A beleza dos altares.

Saudades desse Senhor de Matosinhos
Bem naif por sinal
Mas que nos ocupava todos
E nos fazia esquecer
Que os dias que se seguiam
Eram de escola a valer.
…..
IL


 2018