Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


terça-feira, 29 de março de 2016

Despe-me, amor,
Como só tu o sabes fazer.
Devagar, muito devagar,
Afagando a pele que vai surgindo
E beijando-a por cada peça de que me libertas.
Que interessa que se espalhem pelo chão?
São inúteis para o que buscamos.
Só então  deixa que seja eu a descobrir o teu corpo
Mesmo que seja da forma atrapalhada     
Pela excitação de quem já não consegue parar.
Segura-me como se temesses que eu voasse.
Depois faz meu o teu mundo, qualquer que ele seja.
Mas, por favor não pares de me amar…

SS                                                                   

segunda-feira, 28 de março de 2016

VENTO SUÃO

Chegaste sem avisar
Até talvez sorrindo
Daquele modo especial
De quem vem para surpreender.
Enganaste-te porém.
Uma mulher lê nos astros
E o seu coração tem faro.
Sabia que vinhas a caminho
Porque já sentira o teu cheiro
Trazido pelo vento
Que, soprando até então do norte,
virara num repente a suão.
SS

quinta-feira, 24 de março de 2016

LINHAS

Não me apetece a tangência
porque me sugere linhas
que sobrevivem apenas se encostadas
mas cuja contínua fricção
fere toda uma existência.

Também não quero a intersecção
das linhas secantes
que se cruzam por momentos
para logo se afastarem
numa outra direcção.

Prefiro a equidistância
das linhas paralelas.
Caminhando lado a lado
nunca se perdem de vista
nem mesmo com a distância.

GM

terça-feira, 22 de março de 2016

Primavera

O Inverno
trouxe o fim da espera
pelo novo tempo que acaba de chegar
e prenuncia dias de paz
e de prazer.
A saudade
tornou-se ansiedade
de recuperar
o tempo perdido.
Promete emoção,
sentidos novos,
palavras de esperança,
silêncios alegremente partilhados,
tudo aquilo quanto o amor gera.

Despedido o longo frio do Inverno
Vivamos em amor esta nova Primavera.


SS

sábado, 19 de março de 2016


Há pouco senti uma porta bater
E pensei em ti, pai, 
porque era aquela a hora em que saías 
para trabalhar. 
e para me levares ao colégio
e depois ao liceu 
e, mais tarde, orgulhoso,
a Coimbra
Então disseste-me: 
Como vai ser bom quando te vier buscar
já doutora.
Isso não aconteceu
porque partiste da minha vida
logo nesse ano
e perdemos juntos 
a maior parte de nós: 
Não me viste formar
Não me levaste ao altar,
Não conheceste as tuas netas
(não conhecer é um modo de dizer, 
porque tanto falámos de ti
que até tens um bisneto João, como tu,
o mais novo da família)
Como vês, ainda és falado entre o mulherio
da casa que nos deixaste
(coisa estranha quando nem a tuas netas
nem as bisnetas te conheceram).
Talvez a minha mãe, com quem já estás,
te tenha falado das netas
porque com quem as bisnetas também não conviveu.

Pai
Hoje é dia dos pais cá na terra, como te lembrarás.
Um dia para te festejar.
Dentro de mim assim o farei
como o faço todos os dias
porque nunca senti que me tivesses abandonado.
Sempre te senti dentro de mim.

Espera! … senti agora mesmo 
Uma brisa leve a passar…
Não resististe…já percebi!
Desceste de onde estás só para me beijar.

Um beijo enorme embrulhado em saudade
Isabel

domingo, 13 de março de 2016

Olhaste no fundo dos meus olhos
e adivinhaste-me
tornando tuas as pequenas coisas
que eu julgava guardadas só em mim.
Leste o livro dos meus sonhos
e partilhaste-os com os teus,
num escrito a duas mãos
que mais do que de amor nos fala de vida,
da imagem do nosso dia-a-dia,
desta estranha maneira de ser e de estar.
Se alguém o conseguir ler
evite criticar.
Limite-se apenas a entender
que há mil modos distintos de cada um sentir
o que vulgarmente se designa por “amar”.
SS