Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


terça-feira, 11 de agosto de 2015

Voltar

Espero ver-te voltar
Um dia ao final da tarde.

Quando a luz do sol
Bate sobre mar
E me encadeia
Enrolam-se em mim
Sombras estranhas
Que sugerem faunos
Em que o humano e o bestial se confundem.
É a hora em que acredito em mitos
Lendas e outras histórias
E em que me sinto deusa sem ter deus
E o mar é o meu panteão
É quando sou Penélope sem Ulisses
E a tua memória é o meu tear

Por isso de todas as horas
Essa é a melhor para Voltar

SS

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

MAIS UM DIA

E passou por mim mais um dia
que amanheceu feito esperança,
de carícias e de amores ansiados.
Mas a noite, ao chegar, trocou-lhe as voltas
e  vestiu-o todo de saudade.

Amarga sina a de quem ama sem cautela
e se deixa envolver em devaneios,
pedaços de desejo que se consomem,
soltando para a brisa, que por ali calha de passar,
sonhos desfeitos e sobras de felicidade.


SS

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Sinto-me imersa numa imensa letargia
e as minhas palavras ,
aquelas que te escrevia a cada dia
para que eu nunca desaparecesse de ti,
surgem-me lentas, desalinhadas,
sem brilho, nem cor
como se algo nelas tivesse morrido.

Contudo, dentro de mim
elas vivem e gritam-me
pedindo que quebre as grades
da prisão em que as guardo
para retomarem o seu voo até ti
como se esta ausência que eu própria criei
nunca tivesse acontecido.


SS

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Tempo

Hoje desliguei-me do tempo.
Passei pelas horas
como se elas não existissem.
Não senti a manhã,
esqueci a tarde
e vou avançar a noite
recebendo alegremente
o novo dia
que aguardo dentro de mim.

Então voltaremos ao ponto de partida
e comprovaremos que o tempo e a distância
se deixam marcar nas nossas rotinas
mas nem sempre são prenúncio de fim.

SS

terça-feira, 16 de junho de 2015

PERDI A ALMA


Perdi a alma
no chão do meu país.
Nas palavras que se dizem
nas que não se dizem
nas que não querem dizer nada.
No rosto dos velhos
de rugas profundas
na idade e no abandono;
no dos que não podem dar
porque não têm dono;
nos jovens que vagueiam
em busca do futuro
por um caminho estreito
vedado por um muro;
nas mães que choram
embalando os filhos
nos braços vazios de pão para dar;
nos barcos desfeitos
no fundo do mar;
nos campos vazios
e que deviam criar;
no cinzento escuro
de um céu outrora azul
lembrando paz e harmonia;
num mar que foi verde
sugerindo esperança
e a sua riqueza
a nossa alegria;
nos homens errados
que mandam em nós
e que nos traçam a vida 
com ardis na voz
atirando as culpas
para os usos e memórias
da nossa raiz.
Perdi a minha alma
no chão deste meu país.


SS 

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Dias/noites

DIA/NOITE

Em cada manhã que nascia
era a algema dos teus braços
a prenderem-me
sobre os lençóis amarrotados
da noite que findara.

Em cada tarde era espera
que o sol de escondesse
e que tu voltasses
para me encontrares
antes que a lua chegasse.

Em cada noite era o regresso
do amor que sobrara da véspera
e o adivinhar das palavras invulgares
que inventaras de dia
para à noite m' enamorares.

SS