Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


terça-feira, 16 de junho de 2015

PERDI A ALMA


Perdi a alma
no chão do meu país.
Nas palavras que se dizem
nas que não se dizem
nas que não querem dizer nada.
No rosto dos velhos
de rugas profundas
na idade e no abandono;
no dos que não podem dar
porque não têm dono;
nos jovens que vagueiam
em busca do futuro
por um caminho estreito
vedado por um muro;
nas mães que choram
embalando os filhos
nos braços vazios de pão para dar;
nos barcos desfeitos
no fundo do mar;
nos campos vazios
e que deviam criar;
no cinzento escuro
de um céu outrora azul
lembrando paz e harmonia;
num mar que foi verde
sugerindo esperança
e a sua riqueza
a nossa alegria;
nos homens errados
que mandam em nós
e que nos traçam a vida 
com ardis na voz
atirando as culpas
para os usos e memórias
da nossa raiz.
Perdi a minha alma
no chão deste meu país.


SS 

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Dias/noites

DIA/NOITE

Em cada manhã que nascia
era a algema dos teus braços
a prenderem-me
sobre os lençóis amarrotados
da noite que findara.

Em cada tarde era espera
que o sol de escondesse
e que tu voltasses
para me encontrares
antes que a lua chegasse.

Em cada noite era o regresso
do amor que sobrara da véspera
e o adivinhar das palavras invulgares
que inventaras de dia
para à noite m' enamorares.

SS

quarta-feira, 10 de junho de 2015

ANJO LIBERTINO

O amor é novo todos os dias.
Anjo libertino
nada o impede de aparecer
e vir-me desafiar
para eu brincar com ele.
Nunca resisto às suas traquinices
e deixo-me arrastar
por tudo quanto ele me propõe e faz.

Cada pessoa tem um anjo destes em si.
Tu és o meu.
Será que sou capaz
De me tornar também num anjo destes para ti?

SS

Porque o amor é novo todos os dias

domingo, 7 de junho de 2015

AUSÊNCIA

O meu silêncio amor
não quer dizer nada
que não saibamos.
As nossas palavras
têm atravessado a cortina da ausência
e, apesar do tempo que partilhamos
para eu e tu sermos um nós,
precisamos daquela presença
que o telefone não dá.
Não é por ele que vejo os teus olhos,
sinto o teu coração
ou o calor de um abraço.
Preciso mesmo é do embalo do teu corpo
E do castanho do teu olhar,
lençol que envolve a minha nudez
nos momentos em que tu és o meu homem
e eu tua mulher mais uma vez.


SS

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Para lá

Para lá do tempo
Há um tempo longo, muito longo
Que não medimos nem nunca alcançaremos.
É um tempo de desejos.
De sonhos pintados a azul
Porque essa é a cor do céu,
O dossel do leito onde nos amaremos.

SS