Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


quinta-feira, 16 de abril de 2015

NA PARTIDA DE DUAS COLEGAS

Para a Manela Leal e a Inês que partiram esta semana 


Primeiro foram os anos de convívio diário
de amizade
debate
fúria e cansaço
alegria e entusiamo
mas, sobretudo,
do bulício dos alunos
e da dinâmica da escola
que era uma segunda família.
Como em nossas casas
havia  tarefas a fazer
num dever que nos tínhamos imposto
e que tentámos levar sempre  a sorrir.

A pouco e pouco fomos desaparecendo.
Umas em busca de um repouso apetecido,
outras porque Deus lhes traçou destino diferente.
Contudo restou  um  elo entre  quem ficou e quem  partiu
e as nossas separações  nunca foram esquecimento.
Cabe agora mantermos a fé de que nos vamos rever um dia
num espaço que Deus reservou para a nossa  eternidade
 e onde perceberemos que  a nossa vida neste mundo
afinal pouco mais foi do que um momento.


IL

sábado, 11 de abril de 2015

Dói-me a distância que nos separa
que não se pode medir
mas se sente no tempo que passa sem parar
esvaziado de ti.
Quantos mundos de amor por alcançar?
Quantos beijos por trocar?
Quantos abraços por dar?
Nem a força da paixão nem o desejo
Nos fizeram vencer tanta dificuldade.

A sorte quis que um dia nos juntássemos. 
O atraso do nosso encontro
ou o destino, por ciúmes, talvez,
roubou-nos essa oportunidade.

SS

sexta-feira, 27 de março de 2015

RUMAR DE NOVO



A manhã nasceu
O sol surgiu redondo
Do lado da cidade
E coloriu de rosa
O azul do mar.
Levantei-me de mansinho
Sacudi as penas
E fiz um voo curto
Para me alongar
E recuperar do medo da noite que findara.
Pousei na orla da maré.
Olhei para o alto
E pareceu-me ver,
Se bem que longe,
Um vulto ondulante de gaivota.
Aguardei ansiosa
Que se aproximasse
Para desfazer a minha dúvida
E confirmar a minha esperança.
E eis que ela chegava.
Num movimento em arco
Deslizou para junto de mim.
Cobriu-me com as asas
Cansadas de me procurarem,
segundo segredou.
Encantada
Abriguei-me nas suas penas
E mesmo sem falarmos
Percebi que não fora abandonada.

Olhei o céu
Olhei o mar
E no beijo que trocámos
Descobri
Que voltava a ter rumo novamente

gm

terça-feira, 24 de março de 2015

CABO DAS TORMENTAS


Passou o tempo
Em que a espera era só um pensamento
E não havia o longe
Porque tudo era perto.
Havia espaço para conversa
Preâmbulo de debates
Sobre temas variados
Uns actuais
Outros vindo de passados
Que conhecíamos
Mesmo sem os termos vivido.
Trocávamos cantigas de amigo
Pelas de amor
O que dava às questões muito mais calor.
E acabávamos fatalmente
com Pessoa
D. João II
e o Adamastor…

Passou o tempo
E com este legado
fomos construindo o nosso mundo!...

SS

domingo, 22 de março de 2015

Derradeiro Poente


É pena, amor,
Mas chegaste tarde.
Vieste na ponta do último raio de sol
De um derradeiro poente.
Não o fizeste de propósito
Acho que foi apenas
Porque não sabias o caminho até mim.
Não peças perdão.
Acredito que demoraste
Porque a viagem foi longa no tempo
E me querias trazer um presente
Que julgavas o mais indicado
Para alguém que não conhecias,
Mas cuja existência intuías
E querias encontrar
Para te descobrires a ti próprio.
E que certa foi a escolha!
Para alguém que vivia
Na sombra dos desafectos
Nada como o que trouxeste:
A luz desse teu sorriso.
Mal me olhaste, eu brilhei
E entendi de repente
Que apesar de tantas trevas
A vida tem um sentido.
Pena ter acontecido
No último raio de sol
De um derradeiro poente.

SS

sábado, 21 de março de 2015

PARTIR

Apetece-me partir
Perder-me na viagem
E não mais voltar.
Sempre que parto
carrego na bagagem
os sonhos que ficaram por sonhar
e que tento realizar
em cada lugar
em cada estrada
esperando que na voragem
das mil curvas a fazer
consiga arranjar coragem
para descobrir
se cada sonho perdido
não foi mais do que a miragem
de algo que busquei mas que perdi
porque não entendi a mensagem.


SS