Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


segunda-feira, 9 de março de 2015

A manhã desfez-se na tarde
que surgiu luminosa
e cálida.
E a ausência que éramos tu e eu
deu lugar à presença
que fomos nós.

E a tarde escorreu no tempo
envolvida pelo som dos risos
e das palavras que não se escoavam,
alumiada pelo brilho dos olhares
e acalorada no desejo satisfeito.

E o dia escureceu
porque a noite apagou a tarde
sem que a tivéssemos sentido sequer passar.
E quando a madrugada anunciou nova alvorada

vendo-nos libertos já do peso da saudade,
distraiu-se ao ver-nos a sonhar.


GM

sábado, 7 de março de 2015

ESPERANÇA

ESPERANÇA
Sou feliz
talvez porque não tenho segredos
para esconder.
O que guardo em mim,
para além das coisas caladas
dos dias passados
e das dores sofridas,
é uma enorme multidão
de histórias de criança,
de mil e uma amizades
que fui colhendo como flores de um jardim,
de amores e desamores de uma mulher apaixonada,
tudo quanto sustenta a cada dia que passa,
as minhas memórias por inteiro.
Sou feliz
porque quanto guardo em mim
me ajuda a enfrentar cada manhã com uma nova esperança.
SS


sexta-feira, 6 de março de 2015

GOSTO

Gosto
quando abandonas o pragmatismo habitual
e te deixas levar pelos sentimentos
e sobretudo pelas sensações.
Então, e por momentos escassos,
consegue-se descobrir
o que silencias dentro de ti.
Isso acontece raramente
e sempre através de palavras fugidias
mas que, ouvidas com atenção,
nos fazem entender que esse teu ser, 
para além da matéria,
também é feito de emoção,
coisa que tentas sempre ocultar
não vá alguém, por acaso, adivinhar
que dentro de ti também bate um coração.


SS

quarta-feira, 4 de março de 2015

AMOR AO PEQUENO ALMOÇO



Hoje lembrei-me das nossas manhãs
de antigamente
e do amor servido com café
ao pequeno almoço.
Depois…
Depois valia tudo
menos olharmos para o relógio
para sabermos a hora.        
Nunca nos preocupamos com o tempo
porque foi ele quem, ardilosamente,
nos juntou
um dia, bem cedo,
ao raiar de uma aurora.

SS

segunda-feira, 2 de março de 2015

SÓS


Acordamos solitários nas madrugadas
Que despertam o sol.
Vivemos isolados nas tardes
Quer terminem ou não com um crepúsculo
(Mais ou menos dourado
Segundo as estações).
Adormecemos com ou sem luar
No retiro íntimo dos quartos
Que escolhemos a sós.
Cruzamo-nos sempre nos intervalos do tempo...
Nunca tivemos uma noite inteira para nós...

SS

sábado, 28 de fevereiro de 2015


27.2 O despontar das primeiras magnólias


A chuva

28.2

Devagarinho,
mesmo muito devagar,
a chuva cai
num bailado suave
sobre o meu jardim.
Mal abertas ainda,
as flores que ontem me alegraram o dia
fecharam-se  sobre si
para se protegerem
numa tentativa frustrada
de adiar o seu fim.

SS