Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


quarta-feira, 4 de março de 2015

AMOR AO PEQUENO ALMOÇO



Hoje lembrei-me das nossas manhãs
de antigamente
e do amor servido com café
ao pequeno almoço.
Depois…
Depois valia tudo
menos olharmos para o relógio
para sabermos a hora.        
Nunca nos preocupamos com o tempo
porque foi ele quem, ardilosamente,
nos juntou
um dia, bem cedo,
ao raiar de uma aurora.

SS

segunda-feira, 2 de março de 2015

SÓS


Acordamos solitários nas madrugadas
Que despertam o sol.
Vivemos isolados nas tardes
Quer terminem ou não com um crepúsculo
(Mais ou menos dourado
Segundo as estações).
Adormecemos com ou sem luar
No retiro íntimo dos quartos
Que escolhemos a sós.
Cruzamo-nos sempre nos intervalos do tempo...
Nunca tivemos uma noite inteira para nós...

SS

sábado, 28 de fevereiro de 2015


27.2 O despontar das primeiras magnólias


A chuva

28.2

Devagarinho,
mesmo muito devagar,
a chuva cai
num bailado suave
sobre o meu jardim.
Mal abertas ainda,
as flores que ontem me alegraram o dia
fecharam-se  sobre si
para se protegerem
numa tentativa frustrada
de adiar o seu fim.

SS

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

TARDES DE FRIO

Ah! As tardes de frio
passadas entre lençóis
e guerras de cobertores
que acabavam normalmente no chão.
Os corpos bastavam para aquecer
o quarto todo
que se tornava pequeno
para  o combate
apaixonado,
intenso,
pleno,
e que terminava sempre
na partilha sublime de um saboroso empate…  

SS  

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Olhaste no fundo dos meus olhos
e adivinhaste-me
tornando tuas as pequenas coisas
que eu julgava guardadas só em mim.
Leste o livro dos meus sonhos
e partilhaste-os  com os teus,
num escrito a quatro mãos
que mais do que de amor nos fala de vida,                 
da imagem do nosso  dia-a-dia,
desta estranha maneira de ser e de estar.

Se alguém  o  conseguir ler
evite  criticar.
Limite-se apenas  a entender
que há mil modos distintos de cada um sentir
o que vulgarmente se designa  por “amar”.

SS

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Dor de não te ter aqui.
Talvez a tarde sonolenta
estimule mais esta saudade
dos momentos vividos.
Falta-me o silêncio da tua voz,
o olhar que me cobre por inteiro,
o teu corpo que busca o meu
em desejos tão extremos
que nos levam para além do possível,
para um universo onde nada nem ninguém
nos conseguirá alcançar
porque apenas nós
conhecemos os trilhos para o penetrar.

SS