Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...
no
vento que sopra em contratempo,
no espaço que não se deixa medir,
no passar dos dias que já nem sentimos,
na rotina diária que nos confunde,
nas palavras vazias que proferimos.
Para te encontrar
há que voltar atrás e encontrar o tempo
em que o espaço existia e os dias se ajustavam
ao mundo que ambos construímos,
na partilha de gostos e anseios
de seres que viviam porque amavam.
Perdi-te, amor,
mas vou-te encontrar.
Sumiu-se o teu rasto na bruma que se ergueu
mas não o alento para te resgatar.
SS
domingo, 5 de outubro de 2014
RAIO
Quando me viste não foi o sol poente que te envolvia que te fez brilhar ou retocou a tua imagem para lhe dar uma nova aparência. Tu próprio emitias uma luz florescente que vinha de ti, lá do fundo do teu íntimo, em busca de alguém a quem gostarias de iluminar de uma forma diferente. Viste-me e eu vi-te e, num repente, pressenti que, só de olhar, me trespassaras como o raio de um sol incandescente.
Tenho
a tua presença no meu corpo
Em vestígios imperceptíveis.
Ninguém os vê
Ninguém lhes toca
Nem os adivinha.
Apenas eu conheço
A sua forma
Sei o seu local
E inspiro o seu odor.
Sinais de posse
E de querer
Cada um é um marco real
Do mapa que esboçamos
Para vivermos este amor.