Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

AMAR NUM POENTE

Vem comigo,
mas vem em silêncio
para não estragar o momento
que, para mim, é o mais belo do dia.
O ruído das palavras desconcerta-o
e não quero nada que nos perturbe.
Desçamos até à praia,
vazia  para nós
porque esta hora
é minha, só minha,
e não a empresto a ninguém,
nem mesmo a ti.
Só te a deixo partilhar
porque és uma parte do plano
que tracei para nós dois:
o de te amar um dia
num poente à beira mar.

SS

quinta-feira, 11 de setembro de 2014


Uma a uma
tenho visto esvaziarem-se as palavras
dos sons que me traziam
e me faziam apetecer usá-las.

Por isso busquei o silêncio
que me permitindo ouvir o nada
me fez mergulhar dentro de mim
e a pouco e pouco repensá-las.


O dia em que recuperar os sons perdidos
Será o momento de voltar a libertá-las
SS

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

ENCONTRO PROMETIDO

Prometeste vir encontrar-me
num cruzamento de estradas.
É certo que não disseste o dia,
referiste umas datas possíveis ao acaso,
as que julgavas mais convenientes.
Mas o mês vai já quase na metade
e não me chegam sinais da tua decisão.
A cada dia espero que cumpras a promessa
e me digas quando nos vamos encontrar.
Se não vieres, esconde-me a verdade
da razão dessa promessa falhada.
Alega que não vieste por causa do trabalho,
não suportaria que fosse por falta de vontade.

SS

sábado, 6 de setembro de 2014

Recado

Ouço a tua voz
trazida da distância
pela mesma brisa que carrega
o aroma das uvas a começarem a fermentar.
Consigo mesmo seguir o percurso que ela faz,
por entre montes e vales
rasgados por um rio sinuoso
mas tão calmo e doce
que nem se nota a correnteza.


Ouço a tua voz,
mas não te vejo.
Que  importa?
O caminho que lhe indicaste,
para me encontrar e transmitir o teu recado,
foi desenhado por ti com os fragmentos
de tudo quanto para nós é a beleza.

SS

terça-feira, 2 de setembro de 2014

DESAMOR

Pior que um amor perdido
é o desamor.
O amor perdido
passou
encheu-nos a alma
mostrou-nos o perfume da felicidade
fez-nos sorrir, ainda que brevemente
e  depois… bateu asas e voou.
Mas mesmo que por instantes
a marca dele em nós ficou.

O desamor
nasce na ânsia de conhecermos o amor
por isso esperamos
a sua chegada,
sonhando com ele
como real e nunca uma fantasia.
Mas,  indiferente,
passa por nós sem sequer nos ver
e deixa-nos na alma o sabor a nada.


SS

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A MINHA CASA

A minha casa sou eu própria:
em mim vivo
em mim durmo e sonho
em mim me alimento
em mim me resguardo
da chuva, do vento
e  de outros temporais.
Nela me sinto segura
porque quem me persegue
nunca me vê
pois só encontra uma casa. 


Assim amor,
quando cansado
o corpo te pedir  repouso,
segue o coração e acharás a minha casa,
o lugar que escolhi para vivermos 
e onde encontrarás finalmente
o teu verdadeiro pouso.

SS