Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


terça-feira, 2 de setembro de 2014

DESAMOR

Pior que um amor perdido
é o desamor.
O amor perdido
passou
encheu-nos a alma
mostrou-nos o perfume da felicidade
fez-nos sorrir, ainda que brevemente
e  depois… bateu asas e voou.
Mas mesmo que por instantes
a marca dele em nós ficou.

O desamor
nasce na ânsia de conhecermos o amor
por isso esperamos
a sua chegada,
sonhando com ele
como real e nunca uma fantasia.
Mas,  indiferente,
passa por nós sem sequer nos ver
e deixa-nos na alma o sabor a nada.


SS

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A MINHA CASA

A minha casa sou eu própria:
em mim vivo
em mim durmo e sonho
em mim me alimento
em mim me resguardo
da chuva, do vento
e  de outros temporais.
Nela me sinto segura
porque quem me persegue
nunca me vê
pois só encontra uma casa. 


Assim amor,
quando cansado
o corpo te pedir  repouso,
segue o coração e acharás a minha casa,
o lugar que escolhi para vivermos 
e onde encontrarás finalmente
o teu verdadeiro pouso.

SS

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

ETERNIDADE

Sigo-te
no voo dos pássaros
que fizeram ninho no meu jardim.
Imagino-te
no rasto do avião
que passou agora sobre mim.
Procuro-te
em cada rua que passo
neste meu vadiar sem-fim.

Mas nunca te tenho.

De ti só me chega
o aroma amargo da saudade.
Conservo a esperança
que nos encontremos
no caminho que nos levará até à  eternidade.

SS




quinta-feira, 28 de agosto de 2014

PENÉLOPE

É a hora da partida,
de fazer com a saudade o tear
em que tecerei o tempo que há-de vir.
Cada dia 
será um novo fio da teia
que me liga à esperança da chegada
e que, a cada noite,
desfarei
para renovar a ilusão
que me alimenta o sonho
do nosso reencontro em Ítaca.

(Seja lá Ítaca onde for)

SS

ENCONTRO

PROCURA

Procuraste-me
durante um tempo em que tu eras só tu
e eu apenas eu.
Um dia ousaste avançar
para outro lado do mundo,
afrontando o cansaço
ou o medo.
Aí me encontraste
e eu acolhi-te.
Passámos então a ser nós.

Que pena, amor, não teres chegado até mim
Um pouco mais cedo.


SS

terça-feira, 26 de agosto de 2014

OUTRO TEMPO

Houve um tempo
em que não havia espaços vazios
entre nós.
Os nossos pensamentos
corriam como rios
para encontrarem o outro
em qualquer margem,
cruzavam o ar
montados em pássaros
ou levados pela aragem.
E, mesmo à distância,
sem sabermos um do outro
sempre fomos capazes de nos encontrar.

Tudo mudou.
Os espaços estão vazios.
Esquecemos as rotas das viagens
e  até já não sabemos de nós.
O tal tempo que houve,
e que foi sempre só dos dois,
converteu-se num outro. 
sem sinais nem referências,
e que, ao contrário do primeiro,
é um tempo de estarmos sós.

SS