Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


domingo, 10 de agosto de 2014

NÓS

Perdemos o hábito de nós
Do nosso cheiro
do nosso calor
do nosso toque
da nossa pele
Sinto que tudo isso
não foi mais do que uma oferta tardia da vida
que recebemos sem esperar.
Depois
fomo-nos consumindo
no tempo, no espaço
e sempre na ausência.
Feito o balanço
do que existe ainda entre nós 
será que sobeja alguma coisa
que consigamos recuperar?


SS

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

CHEGASTE NUMA MADRUGADA


Chegaste  de madrugada
sob a forma de visita inesperada.
Tinhas atravessado o mar sem fundo
e acompanhado a rota das aves marinhas.
Encontraste-me
para além das montanhas
onde havia um rio com a cor do ouro
e o ar cheirava a fruta doce.
Os pinheiros, ao sabor do vento,
tocavam a música que me embalava.
Recebi-te como hospedeira
de um hotel que ainda tinha vazio um lugar.
Aí te instalaste e, porque te agradou
acabaste por ficar.
Longo tempo passou,
tudo continua igual:
Nem a distância
nem as ausências
nos desviaram do curso traçado
porque tudo para nós foi sempre natural.
Chegaste numa remota madrugada
e permanecemos até hoje
presos pelo mesmo fio que nos uniu,
que ambos atamos, mas que não se vê
porque foi tecido por nós a partir de um nada.

SS

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

SONHAR CONTIGO

Sonhar contigo
Ao raiar do dia,
Quando os lençóis
Ainda guardam o cheiro         
Do amor da noite que acaba,
E os nossos corpos adormecidos,
Se bem que inconscientes,
Ainda se procuram,
Sonhar contigo,  a essa hora,
É sentir que a vida nos abençoa
Iluminando a nossa intimidade
Com os primeiros clarões da aurora.

SS


domingo, 3 de agosto de 2014

URGÊNCIA

Não espero beijos nem abraços
no nosso reencontro.
Claro que os terei
só que não são eles a razão
do amor que há entre nós.    
Mais importante é o nosso olhar
que, sem falar, nos conta
tudo quanto se passou na nossa ausência,
e nos enreda  na teia de desejo
que a saudade teceu no nosso tempo.
É por isso que de ti espero tudo 
porque o amor para nós é sempre urgência.

SS

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Estou vazia de tudo.
Das minhas mãos mesmo abertas
Já nada sai.
Perdi quanto tinha
No desvario do passar do tempo
Nos desamores vividos
No desfazer das malas de viagem.

De tudo sobrou-me um coração desabitado
E que somente palpita
Quando é agitado pela aragem.

SS

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Sinto-te perto

Sinto-te perto
Na manhã que me acorda
Na tarde que vou entretendo
Na noite que me adormece.
Sinto-te perto na nuvem que passa
No sol que brilha em céu azul
Nas nuvens cinzentas da chuva que cai
Nas estrelas que me velam o adormecer.

Sinto-te perto como se fosses aquela parte de mim
sem a qual eu nunca poderia viver.

SS