Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


segunda-feira, 7 de julho de 2014

ACONTECEU

Primeiro o vento trouxe-me as palavras
e com elas o sentido da busca do meu eu.
Depois foi a troca de um olhar
que me fez sentir o que o meu lia no teu.
Com este logo me desnudaste.
Com as mãos me desmontaste em peças
que acariciaste
e com que ergueste uma  torre de marfim
onde me colocaste como divindade

Porque sou a obra e tu o mestre,
é em cada marca que vais deixando em mim
que aprendi a amar-te de verdade.

SS

sexta-feira, 4 de julho de 2014

SOL

Hoje,

o sol, que abriu envergonhado,

aqueceu-me o corpo tiritante 

e finalmente sorri.


Para o partilhar contigo,

embrulhei-o com cuidado

na luz do meu olhar

e remeti-o, 

envolvido num abraço,

directamente p’ra ti.


SS

terça-feira, 1 de julho de 2014

O TEU OLHAR

O teu olhar
ensinou-me tanta coisa…
e até me contou histórias
algumas de encantar
outras mais para pensar
e debater contigo
o desenrolar da sua teia.
Falavas-me do Graal
que perseguias
e do Rei que mais gostavas,
mas as que eu preferia
eram as da bela Inês,
a rainha sem o ser.
Conta-me tudo outra vez.
Inventa heróis
Ou refaz os conhecidos,
Compõe fábulas
Ou cria mitos,
Mas fala-me de quanto sabes.
Mesmo que não possa entender
são motivos para eu viver.


O que guardo em mim desse teu olhar
são as histórias que gostavas de contar

segunda-feira, 30 de junho de 2014

PERDI-ME

Perdi-me dos dias
Que por mim passaram
Quase sem parar.

Perdi-me dos sonhos
Que sempre embalaram
O meu repousar.

Perdi-me das palavras
De que precisava
Quando queria falar.

Perdi-me da vida
Que ambicionara
Por tanto te amar.

SS

sábado, 28 de junho de 2014

SE

Que me interessa ter o sol
Se não me aquece

Que me interessa ter a lua
Se não me ilumina

Que me interessa ter o céu
Se não o alcanço


Que me interessa ter o mar
Se não o domino

Que me interessa ter a verdade
Se não minto.

Que me interessa amar
Se não te sinto


SS

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Sinto-me como uma freira
encerrada numa cela
que raramente se abre.
Visitas? Apenas pássaros
que me beijam da janela
para me darem bom dia
ou alguma outra irmã
que vive tal como eu
em profunda solidão.
Às vezes, para o confesso
a que somos obrigadas,
vem-nos visitar um monge.


Mas, pelas grades da janela
voa sempre o meu pensar
buscando-te não sei por onde.
Porém a cada dia que passa
vou-te sentindo mais longe.


SS