Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


terça-feira, 1 de julho de 2014

O TEU OLHAR

O teu olhar
ensinou-me tanta coisa…
e até me contou histórias
algumas de encantar
outras mais para pensar
e debater contigo
o desenrolar da sua teia.
Falavas-me do Graal
que perseguias
e do Rei que mais gostavas,
mas as que eu preferia
eram as da bela Inês,
a rainha sem o ser.
Conta-me tudo outra vez.
Inventa heróis
Ou refaz os conhecidos,
Compõe fábulas
Ou cria mitos,
Mas fala-me de quanto sabes.
Mesmo que não possa entender
são motivos para eu viver.


O que guardo em mim desse teu olhar
são as histórias que gostavas de contar

segunda-feira, 30 de junho de 2014

PERDI-ME

Perdi-me dos dias
Que por mim passaram
Quase sem parar.

Perdi-me dos sonhos
Que sempre embalaram
O meu repousar.

Perdi-me das palavras
De que precisava
Quando queria falar.

Perdi-me da vida
Que ambicionara
Por tanto te amar.

SS

sábado, 28 de junho de 2014

SE

Que me interessa ter o sol
Se não me aquece

Que me interessa ter a lua
Se não me ilumina

Que me interessa ter o céu
Se não o alcanço


Que me interessa ter o mar
Se não o domino

Que me interessa ter a verdade
Se não minto.

Que me interessa amar
Se não te sinto


SS

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Sinto-me como uma freira
encerrada numa cela
que raramente se abre.
Visitas? Apenas pássaros
que me beijam da janela
para me darem bom dia
ou alguma outra irmã
que vive tal como eu
em profunda solidão.
Às vezes, para o confesso
a que somos obrigadas,
vem-nos visitar um monge.


Mas, pelas grades da janela
voa sempre o meu pensar
buscando-te não sei por onde.
Porém a cada dia que passa
vou-te sentindo mais longe.


SS

quarta-feira, 25 de junho de 2014

NÉVOA

Hoje apetece-me estar quieta
o que não é normal.

Talvez seja por causa do nevoeiro
que nos empacotou numa nuvem cinza
e teima em não levantar.
Detesto ver o sol tapado
e uso cinza apenas para aliviar luto.
Resta-me a esperança
que os dias passem
e o sol volte a brilhar.
Só então ousarei mover-me normalmente.

Até lá ficarei fechada na minha concha
sem ver nada nem ninguém.

Contudo
se alguém vos disser que me viu assim
não acreditem

Porque eu ...
Eu seria lá capaz de portar-me desta forma indolente!

Quem afirmar que me viu assim...
é porque mente. 

 
SS

domingo, 22 de junho de 2014

DESCANSO


Deixa-me descansar nesse teu ombro
e não te mexas 
para que enfim eu consiga adormecer.
Sabes, já não sei dormir sem te ter ali,
sem o teu cheiro, o teu calor, a tua mão. 
Se eu acordar e ainda estiveres aqui
festejaremos juntos a nossa madrugada
tal como me ensinaste a compartilhá-la
e do modo como aprendi a gostar de ti.

 SS