Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...
Não haverá espaço para um sorriso uma saudação ou um adeus. Nem mesmo ocasião para um curto acercar ou um mero cruzar de olhares. Seremos apenas nós, Sozinhos por entre quem passa, num silêncio feito de saudades.
Há uma porta que nos separa E que não fomos nós a fechar. Talvez por isso É que não temos a chave Que a poderá abrir.
Pressinto-te desse outro lado Fazendo como eu a mesma busca Para a conseguirmos encontrar. O som das tuas palavras O teu cheiro O teu sabor Chegam até mim E por mais que tente agarrá-los Temo que me possam fugir.
Unamos forças, amor Para a conseguir derrubar Não deixemos que uma porta Nos consiga desunir.
Nada me apetece Nem tu cuja imagem me chega difusa no nevoeiro desta tarde de verão.
Não percebo porquê… Talvez porque a tarde não tenha mesmo nada de estival.
Nem consigo recordar-te bem . As minhas memórias estão turvas pela névoa que se apossou de mim e tenho o olhar embaciado. Nada me apetece apenas dormir indolente pelo torpor a que o tédio me conduz.
Vem amor, vem-me buscar. Tira-me da sombra que me sufoca e restitui-me à vida pela energia envolvente dessa tua luz.
Regresso do passado no exame diário do meu presente… E eu, que dizem agente de futuros imprevisíveis, sinto-me moldada numa imagem irreal por quem julga que o meu tempo é indistinto entre o viver e o realizar-me num dever imposto. Sou fruto do que ficou para trás, de gerações que não conheci, nem senti e cuja herança transformo, em cada dia, no muito, pouco ou nada de tudo quanto dou e que recebo.
São meus os pensamentos e o querer que florescem livres, sem medos nem limites a cada estação que passa… E sou feliz, mesmo quando mal me querem, porque bem me quero no espaço que escolhi. IL