Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


domingo, 27 de abril de 2014

CARTA A VASCO GRAÇA MOURA / 27-4-2014


Para o Vasco Graça Moura 

                De Matosinhos já partiras há muito. Ficaram para trás as idas para o liceu de eléctrico e foste para Lisboa estudar. Por cá ficou-te a família e a namorada, minha amiga, com quem casaste e tiveste os teus filhos, Vasco e Gonçalo, até que o teu coração te levou para outro amor, diferente do primeiro.  Os nossos filhos cresceram por perto. Matosinhos era uma vila onde toda a gente se conhecia. Por isso pudemos seguir ao longe, mas muito de perto, a trajectória do que foi a tua vida sobretudo depois do divórcio. Julgo que saberás que a Nani sempre te amou e te esperou  ainda muito tempo. Só que não cabia já na vida que escolheste, partilhada entre a advocacia, a política e a literatura. Contudo foste o seu grande amor. Disse-mo ela numa noite, num país longínquo, sentadas as duas numa praia infinita de areias quentes, esperando que a lua chegasse até nós para irmos nadar à sua luz. Ela também refez a sua vida com alguém que a amava e ama muito e lhe deu a atenção que ela já não sente, mas precisa, neste seu peregrinar pela doença. Julgo que não faltará muito para vocês se reencontrarem. Então acertarão as contas da vossa vida em comum.
Mas como a vida é uma caixa de surpresas, se te perdi então, acabei por te recuperar através dos teus netos, os filhos gémeos do Vasco e da Patrícia, que são sobrinhos do namorado de uma das minhas netas e um dia me apareceram cá em casa para almoçar. E gostaram da ideia de eu conhecer os avós. Tantas perguntas que eles me fizeram! Dessa conversa surgiu a ideia do Gonçalo fazer uma quadra para te levar. E fê-la. E levou-ta para o fim de semana em Almeirim. Nesse momento, sem te ver, através deles, voltaste de novo à minha vida pessoal. Como diria a minha mãe, sábia dos anos vividos, a vida tem sempre um recomeço. Tal como a amizade.
                Obrigada pelo que fizeste pela nossa língua. Obrigada pelos teus textos e poemas. Obrigada pelo teu desacordo sobre o triste acordo que rebaixa a nobreza e a pureza do nosso português nascido lá longe, há muitos séculos, e que é uma referência mundial - a 5ª língua mais falada. Obrigada por teres sido algum tempo um dos nossos desta terra de praia, mar azul e muitas nortadas. Obrigada por teres conseguido ser igual a ti próprio até ao fim.
Até um dia, Vasco. Fica em paz. E, se tiveres oportunidade ,escreve mais umas coisinhas. Quando nos reencontrarmos vamos ter muito que conversar sobre o tempo perdido.
Isabel Lago

 Por concordância com o destinatário, este texto não respeita as normas do Novo Acordo Ortográfico

Portugal e o eterno retorno



sábado, 26 de abril de 2014

FIO DE NOVELO


 Une-nos um fio enrolado num novelo

cujo princípio vou puxando com os dedos

para atingir a extremidade que seguras

e que, se me queres,

te compete desenredar em direcção a mim.



Tarefa de paciência, mas de esperança,

a cada dia que passa este será nosso labor:



o de conseguirmos juntar as duas pontas

que, presas somente com um nó,

amarrarão para sempre o nosso amor.

 
SS
 

sábado, 19 de abril de 2014

Páscoa feliz

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sexta-feira, 18 de abril de 2014

CARTA DE DESPEDIDA DE GABRIEL GARCIA MARQUEZ


“Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo o que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e disfrutaria de um bom gelado de chocolate.
Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida vestiria simplesmente, jorgar-me-ia de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como também a minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saisse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.
Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida!… Não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas: amo-te, amo-te. Convenceria cada mulher e cada homem de que são os meus favoritos e viveria apaixonado pelo amor.
Aos homens, provar-lhes-ia como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar.
A uma criança, daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.
Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês, os homens… Aprendi que todos querem viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a rampa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta, com sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do pai, tem-no prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, a mim não poderão servir muito, porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer.”

Que repouse em paz.
Obrigado por tudo quanto nos ofereceu na vida dele 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

 

Fugiste
como ave que abriu uma gaiola
voou.

Pena teres partido assim
daquele modo ligeiro
de quem fez promessas
mas nunca amou.
SS