Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

PALAVRAS

Nem o teu calor me aquece,
nem as tuas mãos me afagam.
Há paredes invisíveis entre nós
enormes,
intransponíveis, 

blocos de cimento que nos impedem a passagem.


Que felizes éramos
quando apenas nos separava a distância
e nas nossas jornadas solitárias
as palavras
eram tudo o que tínhamos de bagagem.


SS

domingo, 1 de dezembro de 2013

AUSÊNCIA

A nossa ausência começou antes de nós
Nos lugares onde não nascemos
nas pessoas que não conhecemos
na infância que não partilhámos
nas escolas que juntos não frequentámos
no liceu onde nunca me foste buscar
nos cursos que fomos tirando
nas cidades em que ambos não estudámos.  

A nossa ausência foi marcada
por outros alguéns que ambos amámos
por guerras e revoltas que não escolhemos
pelos filhos que fomos fazendo
e pelos dos outros que nós ensinámos.
Nunca nos conhecemos, mas sempre vivemos
em busca de alguém onde nos encontrarmos.  

A nossa ausência hoje é uma presença
tem corpo, tem voz, tem realidade.

Encontra-se no espaço de cada instante
em que ambos nos unimos em total verdade.


SS

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O DIA A SEGUIR

O dia a seguir é o pior.
É o dia em que não queremos acreditar,
e em que ainda nem sentimos ausência
porque a proximidade da partida

alimenta a fé num possível regressar.

Mas no dia a seguir
começa a sentir-se a irrealidade
de uma vida igual à anterior.
Por isso o dia a seguir

é o primeiro de um tempo novo
erguido sobre memórias e vivido na saudade. 


SS

terça-feira, 19 de novembro de 2013

NUMA PARTIDA


Filó

Acredito que cada um de nós
será capaz de transformar a dor da tua partida
num momento de muitas memórias
em que a tua perda representa apenas mais uma ausência
e cada lágrima, que agora choramos,
uma pérola que enfiaremos no cordão
que é o passar de cada dia
e com que faremos um rosário especial
para rezarmos por ti.


A eternidade não tem princípio e nem fim.
Quando lá chegarmos
Não temos que pensar no que ficou para trás
nem no que está para vir.
Nesse momento
teremos à nossa espera
todos quantos como tu nos deixaram
para nos esperarem e indicarem o caminho.
E nesse lugar, que julgamos sempre tão distante
Porque nos chama de surpresa,
Vamos ver-te à nossa espera
A fazer o que tão bem sabes: sorrir.
 
Até sempre, amiga

Isabel 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

ESTRADA



A cada dia
percorremos mais um pouco da longa estrada
que há entre nós,
espaço vazio que desconhecemos
mas de que procuramos entender a realidade.

Os passos dados em direcção ao outro
são apenas etapas
que nos ligam mais do que nos separam.
Partimos com a certeza de um encontro,
termo desta busca de desejo modelado na saudade.


 SS

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

RUMO DE PALAVRAS

Recolho-me nas tuas palavras,

aves em voo de um bando perdidas


buscando o seu rumo num outro lado

que não o dos outros, dos comentaristas,

mas antes diverso do que é esperado.


Sorvo-as por inteiro,

não em frases longas, mas letra a letra,

alimento-me com elas para me livrar

da teia tecida por malabaristas

que jogam com elas para nos enganar.


SS