Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


terça-feira, 23 de abril de 2013

OUVIR-TE

Não sei viver
no vazio do som das palavras
das sílabas
das letras.

Mais do que escrevê-las
ou lê-las
gosto de as ouvir.

E do som das tuas, meu amor,
é a força que alimenta o meu viver
e a cada dia me proíbe desistir.

SS

sexta-feira, 19 de abril de 2013

EU EM TI



Nunca me disseste
o que pensas

ou sentes por mim.

Entrei na tua vida
sem dizer porquê
e como ficaste calado
arrumei-me por lá
num espaço que não sei qual é

e que nem sequer foi demarcado por ti
mas onde eu me acolhi
e em que espero,
a cada dia que passa,

perceber se sentes
que eu estou ali.

Será que não ainda não reparaste em mim
ou o silêncio tão próprio de ti
é a forma que encontraste de me dizer um Sim?


SS

quinta-feira, 18 de abril de 2013




Um dia partiu.
outro dia vai chegar,
desvarios do tempo
que cisma em não parar.

Assim é o amor:
quando aparece
e gosta do par
demarca o espaço
para se fixar
.



SS

segunda-feira, 15 de abril de 2013

FALAR



Sinto falta da palavra
não da social
nem a do cumprimento casual
mas da debatida,
da travada à volta
da que gera discussão,

porque alvo de muita opinião,
muita filosofia
e muita frase feita.

Contudo
quanto mais o sentido do objecto em causa
é desconhecido
mais surge quem o quer esclarecer
utilizando teorias semânticas,

sintaxes alternativas
e até evolução da morfologia
esquecendo o conteúdo
ou outros princípios mais
que apenas servem

para disfarçar a ignorância
de quem sobre o saber só tem ganância.

Nós, os que gostamos da palavra,
e que nos servimos dela
para dar vida a um qualquer tema,
não precisamos de público nem luzes da ribalta
para a celebrar.

Isso não passa de um esquema
para quem não é ouvido, mas insiste em falar.

SS

sábado, 13 de abril de 2013

TEMPO


Nós não temos tempo
nem mesmo uma imagem dele.
É uma aragem que surge entre nós
que nos atravessa sem passagem.
Nunca o sentimos,
não o medimos
e não o conseguimos ver.

Tempo é algo
que escorre pelos dedos
e se alberga na nossa alma.

E como não o conseguimos aí deter
buscamo-lo continuamente
para o tentar apreender.

Tempo para nós
Limita-se ao estar
sem limites

sem dúvidas.

Tempo para nós é só ficar.


SS

quinta-feira, 11 de abril de 2013

PERDI A ALMA


Perdi a alma
nas pequenas coisas
do quotidiano;
nas conversas trocadas
pelas ruas
com gente que vagueia;
nas notícias
que se cruzam
ocas e sem destino;
na chuva
que cai sem parar
no inverno desta primavera;
nas flores
que não abrem
porque se apagou o sol;
nos dias
que se sucedem
em discordante sequência;


perdi a alma
por mim
por ti
por nós
pela ausência…

SS