Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


sexta-feira, 5 de abril de 2013

FIO DE UMA HISTÓRIA


Apanhei um fio da tua história
e instalei-me nela 

sem pedir licença.
O teu silêncio
interpretei-o como permissão
para lá permanecer.

Primeiro fiquei só um pouco
depois fui ficando, ficando
e quase sem dar por isso
ocupei o teu espaço
e sem me tentar esconder
preenchi-o até ao fim.

E o fio da tua história,
aquele que eu tinha puxado
para ser parte de ti
envolveu-se todo em mim.


SS

quarta-feira, 3 de abril de 2013

REGRESSO DO SOL



Com o sol chegou-me a tua imagem.
Talvez tenha sido por me sentir acariciada
pelos fios de calor que me envolveram
como num abraço
e que me fizeram lembrar
os que me costumas dar

quando me tens só para ti. 

Ando tão falha deles…


Terá sido por isso
que este inverno foi tão frio
e o céu chorou todos estes meses?

Esperemos um pouco mais…
até ao sol voltar a ser um amarelo radiante
e o céu se vestir todo inteiro de azul.
Então nada nem ninguém me prenderá.
Voltarei a ser gaivota livre,
solta de amarras e de temporais
que irá abandonar a praia da espera,
sítio escondido dos que sofrem,
e onde quer que estejas aí te encontrará.


SS

sábado, 30 de março de 2013

PÁSCOA DA MINHA INFÃNCIA


Quando era criança
Páscoa para mim eram as amêndoas
comidas lentamente no colo do meu pai
que me acariciava até eu adormecer;

eram as flores
que a minha mãe dispunha por toda a casa
e até, imaginem, na porta da entrada
por onde o compasso subia
ao som de sineta ruidosa
para o padre nos benzer;
eram os dia de luz

que a Primavera trazia
e o sol que nos aquecia,
indiferentes ambos
ao Calvário de Jesus;
era a mesa grande
era a família
os amigos
e até gente que pouco se conhecia

mas que era sempre bem vinda
apenas porque aparecia;
e eram os brindes com Porto
e os nacos de pão de ló,
comidos sempre à mão
e que eu roubava dos pratos
p’ra partilhar com os meus gatos.

Na minha Páscoa de infância
feita de cheiros e sabores
eu era o centro da história;
hoje
essa Páscoa
com gente, açúcar e amores
existe apenas em mim
alojada em pedaços de memória.


SS

 

terça-feira, 26 de março de 2013

PROCURA




Nuas,
as árvores alongam-se
e os ramos cruzados,

quase em simetria,
apontam-nos caminhos,
rotas de peregrinar
dentro de cada um de nós.
Não sabemos o que buscamos

mas nem por isso paramos. 
O sentido da vida
Está nesse procurar.

SS


Foto de Joana Guardão Cavalheiro

sábado, 23 de março de 2013

TROVOADA DE PRIMAVERA


 
E de repente
o céu fechou-se
e de alegre a tarde pôs-se triste.

As nuvens,
cortinas de cenário de inverno,

foram empurradas
pelo vento forte que soprou .
Um raio em ziguezague
iluminou o estrondo do trovão.

Desolada com estas boas vindas
a Primavera chorou.


SS

quinta-feira, 21 de março de 2013