Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


sábado, 30 de março de 2013

PÁSCOA DA MINHA INFÃNCIA


Quando era criança
Páscoa para mim eram as amêndoas
comidas lentamente no colo do meu pai
que me acariciava até eu adormecer;

eram as flores
que a minha mãe dispunha por toda a casa
e até, imaginem, na porta da entrada
por onde o compasso subia
ao som de sineta ruidosa
para o padre nos benzer;
eram os dia de luz

que a Primavera trazia
e o sol que nos aquecia,
indiferentes ambos
ao Calvário de Jesus;
era a mesa grande
era a família
os amigos
e até gente que pouco se conhecia

mas que era sempre bem vinda
apenas porque aparecia;
e eram os brindes com Porto
e os nacos de pão de ló,
comidos sempre à mão
e que eu roubava dos pratos
p’ra partilhar com os meus gatos.

Na minha Páscoa de infância
feita de cheiros e sabores
eu era o centro da história;
hoje
essa Páscoa
com gente, açúcar e amores
existe apenas em mim
alojada em pedaços de memória.


SS

 

terça-feira, 26 de março de 2013

PROCURA




Nuas,
as árvores alongam-se
e os ramos cruzados,

quase em simetria,
apontam-nos caminhos,
rotas de peregrinar
dentro de cada um de nós.
Não sabemos o que buscamos

mas nem por isso paramos. 
O sentido da vida
Está nesse procurar.

SS


Foto de Joana Guardão Cavalheiro

sábado, 23 de março de 2013

TROVOADA DE PRIMAVERA


 
E de repente
o céu fechou-se
e de alegre a tarde pôs-se triste.

As nuvens,
cortinas de cenário de inverno,

foram empurradas
pelo vento forte que soprou .
Um raio em ziguezague
iluminou o estrondo do trovão.

Desolada com estas boas vindas
a Primavera chorou.


SS

quinta-feira, 21 de março de 2013


DIA DA POESIA


 
 

Quis escrever um poema:
Escolhi as palavras
Uma a uma com cuidado
E pu-las todas de lado.

Misturei-as com afectos
Com céu, com sol e com mar
E juntei-lhes muitas flores
Para conseguir mil cores
Que me avivassem o tema.

Depois de escrito guardei-o
No caderno habitual
De onde, por qualquer razão,
O texto desapareceu.

Agora,
Resta-me uma dúvida final:
Será que perdi o poema
Ou foi ele que se perdeu?

SS

quarta-feira, 20 de março de 2013





Não me vieste ver hoje,
mas um pássaro que voava no jardim
assomou à minha janela
trazendo no bico uma flor
que pousou no varandim.

Bateu asas e voou
e da árvore onde pousou
ficou a olhar cá para dentro
como se esperasse um sinal.

Foi então que entendi:

como não pudeste vir,
a flor que ele deixara
foras tu que lha entregaras
para a trazer até mim.

SS