Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


quinta-feira, 21 de março de 2013

DIA DA POESIA


 
 

Quis escrever um poema:
Escolhi as palavras
Uma a uma com cuidado
E pu-las todas de lado.

Misturei-as com afectos
Com céu, com sol e com mar
E juntei-lhes muitas flores
Para conseguir mil cores
Que me avivassem o tema.

Depois de escrito guardei-o
No caderno habitual
De onde, por qualquer razão,
O texto desapareceu.

Agora,
Resta-me uma dúvida final:
Será que perdi o poema
Ou foi ele que se perdeu?

SS

quarta-feira, 20 de março de 2013





Não me vieste ver hoje,
mas um pássaro que voava no jardim
assomou à minha janela
trazendo no bico uma flor
que pousou no varandim.

Bateu asas e voou
e da árvore onde pousou
ficou a olhar cá para dentro
como se esperasse um sinal.

Foi então que entendi:

como não pudeste vir,
a flor que ele deixara
foras tu que lha entregaras
para a trazer até mim.

SS

terça-feira, 19 de março de 2013

PROCURA


Procuro-te
nas pequenas coisas do dia a dia,
no que fiz e no que deixei de fazer,
em cada manhã que se abre em rosa
e em cada tarde que se fecha em azul marinho,
ao anoitecer.

Procuro-te como sou
nos sítios em que imagino estar,
mas onde afinal não estou.

Procuro-te no tempo que sinto passar
e naquele que espero há-de vir,
mas nunca sinto chegar.

Procuro-te no longe e no perto
no que conheço e no que desconheço,
no princípio do tempo e no seu fim.



A minha vida é toda uma procura
que só terminará quando te tiver
todo por inteiro ajustado a mim.


SS

segunda-feira, 18 de março de 2013

REGRESSO




 Há sempre um desejo de regresso
diluído dentro de nós
que nos mantém  tão vivos
como o respirar.

Não interessa para onde
para quê
ou para quem,
apenas sabemos que temos de voltar.

SS

sábado, 16 de março de 2013




 
Estou cansada da palavra adeus. 
Lembra-me sempre partida

nunca chegada.

Arrasta com ela ausência

tristeza e saudade,

e nunca evoca presença.


Nunca se diz adeus num regresso
somente na despedida.
SS

quarta-feira, 13 de março de 2013


POEMA OCTOGÉSIMO

Frágeis como os ossos de um cristal,
os meus pensamentos aninham-se na noite
para construir o poema. A minha dor branca prefere
a luz que prenuncia a madrugada, luz bailarina
que me ilumina a pele molhada de alegria
sempre que faço em ti o trabalho doce da abelha
e me deito sobre o teu corpo para provar da vida
o melhor de todos os néctares, o mais completo
dos versos que o teu sangue me dá.  Continuo
a escrever-te com o meu corpo. Quero ganhar
o nobel da ternura 

Joaquim Pessoa