Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


quarta-feira, 13 de março de 2013


POEMA OCTOGÉSIMO

Frágeis como os ossos de um cristal,
os meus pensamentos aninham-se na noite
para construir o poema. A minha dor branca prefere
a luz que prenuncia a madrugada, luz bailarina
que me ilumina a pele molhada de alegria
sempre que faço em ti o trabalho doce da abelha
e me deito sobre o teu corpo para provar da vida
o melhor de todos os néctares, o mais completo
dos versos que o teu sangue me dá.  Continuo
a escrever-te com o meu corpo. Quero ganhar
o nobel da ternura 

Joaquim Pessoa

terça-feira, 12 de março de 2013





É saborosa esta espera para te falar
cada dia ao final da tarde.
Não é exactamente como esperar
veres-me à saída do comboio
com ar de quem vai apenas a passar
e por acaso, muito por acaso ,

levantares os olhos e
Oh! espanto!
dares comigo acabada de chegar.

Mas à falta de melhor
poder dizer-te olá
cada dia, ao final da tarde
dá para alimentar
esta excêntrica fome de te amar.


SS

segunda-feira, 11 de março de 2013



 

Chove

e na tarde que persiste

em copiar as dos dias anteriores

pergunto-me porque razão Deus insiste

em prolongar o inverno.


Será que no céu também a crise existe

e se acabaram os dias melhores?

 
SS

sábado, 9 de março de 2013





Pressinto-te a saudade 

Nas palavras escritas de cada dia

que se cruzam entre nós 


soltas e curtas, 

mas como se nos quisessem agarrar

e unir.

Sabe-me bem lê-las

quando não as posso ouvir.


SS

quinta-feira, 7 de março de 2013


 
Embrulhado em escuridão e nevoeiro
o sol tentou abrir
sobre a cidade ainda a despertar.

O rio surpreendido, tornou-se chão
e pareceu temer avançar.
Mas a luz irreal que o intimidara
ajudou-o a recompor-se
e, vagarosamente,

retomou o caminho para o mar .

 SS


Foto de Jorge Borges

quarta-feira, 6 de março de 2013




Sempre que parto

trago os teus olhos dentro dos meus.

Com eles entendo melhor

os estorvos do caminho

e da distância.

E quando estou longe iluminam o meu espaço, 

não aquele em que habito

e que partilho com o mundo,

mas um outro, só meu,

onde guardo apenas 

aquilo que para mim tem importância.


SS