Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

NEVE



Na minha cidade não há neve
mas há mar
que quando bate nas rochas
faz castelos de flocos
que se espalham pelo ar.

Na minha cidade não neva
mas há espuma do mar.


SS

domingo, 10 de fevereiro de 2013

NÉVOA



Não ouço as gaivotas
nem o mar
apenas tenho a névoa por companhia.
Perdi o rumo.
Desencontrei-me do mundo.
Os meus passos já não ecoam
e o silêncio que me rodeia
passou a ser meu único companheiro
neste desenrolar de cada dia.

SS
Foto de Luís Carapeto

sábado, 9 de fevereiro de 2013

O PRIMEIRO COR DE ROSA DESTE ANO

 
 
Os galhos nodosos, fartos do inverno,
abriram para o céu azul,
de fresco pintado,
emoldurando,
num acabamento perfeito,
uma pincelada de rosa a anunciar,
se bem que precocemente,
a Primavera a chegar.

SS
 
 

 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

INVERNO PESSOAL


Neste princípio de Inverno,

chuvoso e frio,

descobri, por acaso

que um pingo de sol inesperado

caíra nos meus cabelos.

Agarrei-o para me aquecer.



Como isso não aconteceu

eu percebi

que o que pensava ser o fulgor do sol,


reflectido sobre a minha cabeça,

eram as fatais primeiras cãs

começando a aparecer.



SS

 
Foto de Onésimo Teotónio de Almeida

sábado, 26 de janeiro de 2013

VIDA


A cada dia que passa
revejo o meu passado
e pensando em tudo quanto ele me deu
tento tirar lições para o futuro.

Mas se o primeiro foi longo e cheio,
como o são as jornadas de verão,
o segundo peca pela escassez do tempo
lembrando a exiguidade dos dias de inverno.

Que estranha é a esta vida…
que tudo nos dá quando não a sabemos totalmente usar
e tudo nos vai retirando quando,
já conscientes do saber e da verdade,
decide por nós o momento da partida.


SS

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013


Primeiro levaram-me os teus olhos
depois o calor das tuas mãos
e o sabor do teu sorriso.


Depois, quando já só restavam as palavras
ditas na rapidez do afastamento
e já não entendidas
como quando as sentia a sair directas do coração,
uma luz nasceu
brilhou mais que todas as outras estrelas
e fez de nós um novo sol.


Percebi então que o nosso tempo não se tinha acabado
nem perdido.
Andava somente desviado.


SS