Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


domingo, 5 de agosto de 2012

BREJEIRICE


Passar a ferro é diferente de engomar
se bem que lá no fundo
tenham as mesmas funções.


Poderia fazer um tratado
sobre ambas as expressões
(bom trabalho para um mestrado
na Lusófona, quem sabe,
não fossem as alterações).


Ambas precisam do mesmo:
quem trabalhe e goste do que vai fazer
e um ferro p’ra aquecer.


Se queremos engomar
precisamos de ajudantes:
amido, fécula, maizena,
que se misturam na água
onde se banham as peças.
Depois é só torcer e passar
p’ras ditas ficarem tesas. 


Este processo com aditivos é eficaz
mas só para quem começa
e tem dúvidas se é capaz.


O passar a ferro normal
tem um certo ritual
em que além de água e calor
e muito e muito saber
é preciso ter ardor
para misturar adequadamente
tudo quanto é necessário.


Primeiro escolhe-se a peça
e estica-se manualmente.
Depois aquece-se o ferro
gradual e convenientemente.
Em seguida, com a energia bem acesa,
Borrifa-se a gosto ou como dá jeito
e com a peça bem presa
atirámo-nos à empresa.


Deixo ao gosto do aprendiz ou leitor
escolher dos dois métodos
o que achar mais eficaz
ou o que lhe souber melhor.


SS



sábado, 4 de agosto de 2012

SONO?



A tua cabeça
descaiu devagarinho
sobre o ombro a que estavas encostado.

Adormeceras.

A conversa não conseguira competir
com o calor da tarde 

ou,
se calhar,
não estavas interessado 

no que eu te estava a contar
e esperavas outra coisa.

Não te importes, amor,
não era nada de especial
nem nada que já não soubesses.
Logo te direi
quando, acordado.
e relaxado
já me quiseres ouvir.

Assuntos de amor
podem adiar-se
porque há sempre tempo para os repetir.


SS

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

PAUSA NA POESIA

Hoje apetecia-me ir buscar
outro tipo de poesia
para te escrever.
Algo que não falasse
de sol ou de mar,
de gaivotas ou flores
e até que nem tivesse que ver com amores.
E o dia ajuda porque está cinzento
(vai chover” segundo a meteorologia).

Falando a verdade hoje não tenho tema nem mote
e talvez nem disposição.
Poetar pede sempre um momento
de paz e melancolia
e coisas mais que hoje não tenho

com a empregada de férias
e tanta roupa para passar.


Esperemos por amanhã.

Mesmo a trabalhar arduamente
talvez seja um melhor dia.

GM

quarta-feira, 1 de agosto de 2012



Todos os dias parto de mim
em silêncio, sem projectos e sem rumo…
Caminho ao sabor do vento
e em direcção à luz
procurando algo que não sei se existe…

Mas se existir e eu encontrar o que desejo
traçarei projectos e até um rumo.
E no dia em que tiver de novo a minha voz
anunciarei ao mundo que existo
mais do que para mim
para ambos nós.


SS

segunda-feira, 30 de julho de 2012

RAIO DE SOL

Dá-me a tua mão
e aperta nela a minha.
Mesmo à distância
eu vou sentir o toque da tua pele
a acariciar-me.
Não que sejas dado a esse tipo de “pieguice”
ao contrário de mim, que adoro a mimalhice.

Sabe tão bem sentir-te…

Até o sol, gentil, entendeu o meu desejo
e decidiu juntar-se, feliz,
à ternura a que foste obrigado:
entrou pela janela um raio alaranjado
e veio dar-me um beijo na ponta do nariz.


SS

domingo, 29 de julho de 2012



Não sonho com estrelas.
Estão demasiado longe
para que a sua luz me ilumine e os mitos que as rodeiam
só servem para me iludir.
Prefiro a textura viscosa das estrelas do mar
que a água traz até mim com as marés.
quando, triste e só,
espero pelos poentes estendida na areia.
Todas elas me rodeiam e me contam histórias
talvez julgando que sou uma sereia
porque tão entretidas estão no desfiar das suas aventuras
que nem reparam que, em vez de cauda, eu tenho pés.

SS