Uma irreverência entre a memória e a saudade


Há um fio ténue que liga a memória com a saudade. Chamei-lhe irreverência porque ele se move constantemente e em todas as direcções fazendo-me lembrar o vento que, vindo do mar, me afaga desde que nasci...


sexta-feira, 29 de agosto de 2008

TEMPO

Dia a dia marquei no calendário O tempo da ausência. Enchi os meus dias de passeios pela praia para acompanhar o voo das gaivotas e sonhar que podia ir com elas levar-te os meus sonhos e desejos do tempo de regresso. Misturei os meus papéis de trabalho com as palavras do Aznavour e às vezes do Sinatra para não sentir os dias que passavam sem voltares. Mudei três vezes as rosas vermelhas da minha jarra e tu não chegaste a vê-las. Agora vou colorir o resto dos dias com a cor da esperança para que este novo tempo que falta seja um tempo breve e que as gaivotas me devolvam os meus sonhos e os desejos do tempo de regresso. Soror S

Back Home Again - John Denver

REGRESSO A CASA

Depois da ausência 
Sempre que regresso a casa 
Espera-me o cheiro bom 
Do meu quotidiano. 
Abertas as janelas 
Os objectos têm outra dimensão 
E afago-os 
Como se os tivesse perdido 
Para sempre 
Mas os tivesse reencontrado e com eles o lar. 
Por isso preciso de os tocar Para os sentir. 
São eles que me dão a certeza do regresso. 
 Em cada volta a casa Eu nasço outra vez

im

GOOD NIGHT SWEET HEART - QUE SAUDADES!!!

NOVO DIA

Após a chuva de ontem Nasceu de novo o sol. Um gato veio espreguiçar-se Languidamente na minha varanda. As gaivotas atravessaram o céu Por cima de casa E não gritaram Como nos últimos dias. Sentei-me no jardim E deixei-me envolver pela luz estival. Senti que agora estava tudo bem Que já não precisava de partir Para me afastar de ti E do teu desassossego. Deixei-me embalar pela brisa… A sombra da buganvília Criou estranhos arabescos no meu corpo. Um torpor estranho se apossou de mim E, quando acordei, Já o sol desaparecia devagar Para dar lugar à lua cheia outra vez. im

LUA CHEIA DE AGOSTO

Desperta, amor, O sol já brilha Se bem que a lua, Curiosa, Ainda se recuse a partir. Talvez por isso E porque me convidaste A partilhar a lua cheia de Agosto, Que ainda não chegou Apenas se adivinha No crescente desenhado no meu céu, Estejas nessa prostração. Desperta, amor Quero-te bem vivo. Espero o teu sorriso Ou melhor, as tuas gargalhadas Aquelas que me prometes-te Quando me achaste. Abre a janela, amor Deixa entrar o sol Não na casa, mas em ti. Deixa os seus raios Brincarem com o teu nariz Enquanto repousas no sofá. Desperta, amor. Abre o coração à vida, Recusa sair de cena E volta. Tens de saber separar o dia da noite. Só com essa certeza posso aceitar O teu convite Para partilhar a lua cheia de Agosto.

SOROR S